Antigas estações ferroviárias ganham novos usos

Região

| ANDRÉ ESTEVES - Da Reportagem Local

Na 10ª RA (Região Administrativa) do Estado de São Paulo, o abandono de prédios e estações ferroviárias interferiu diretamente no urbanismo de cidades como Álvares Machado, Regente Feijó e Presidente Epitácio. Há aquelas onde tais elementos foram demolidos; ocupados por comerciantes; transformados em departamentos culturais ou divisões municipais; submetidos a processos de revitalização; invadidos para fins de moradia; ou simplesmente esquecidos. Nesse último caso, seguem com intervenções pouco frequentes, até mesmo nos entornos dos trilhos, que já estão tomados por mato alto.

Em Álvares Machado, os antigos prédios onde funcionavam a estação ferroviária e o armazém abrigam hoje estabelecimentos comerciais que atendem aos munícipes há décadas. Enquanto seus proprietários destacam que a implantação do comércio naquela área favoreceu o trecho e afastou o consumo de drogas e a mendicância, a administração municipal ressalta que a ocupação é “irregular e sujeita a notificações e multas”. “A Prefeitura não aluga estes espaços. Se ocorre aluguel, é aluguel irregular”, expõe.

O serralheiro Amadeu Ferrer Villar Filho, 63 anos, ocupa o antigo armazém há 30 anos e afirma que, desde então, caiu o número de pessoas que frequentam o entorno da linha férrea para práticas ilícitas. “Quando eu cheguei aqui, tinha muito disso, mas agora melhorou bastante”, comenta. O eletricista Juliano Teixeira, 32 anos, diz que não apenas a fixação do comércio contribuiu para esta diminuição, como também o trabalho executado pela Casa de Passagem nas imediações. Ele aponta que a oficina ali instalada é uma herança de seu pai que já está em funcionamento há 27 anos. “Quando chegamos aqui, o trem ainda passava, havia o telégrafo e até mesmo o chefe de estação”, recorda. Por se tratar de um patrimônio histórico, menciona que não tem a liberdade para fazer qualquer alteração na estrutura e, por esta razão, improvisou um telhado extra a fim de evitar os pingos de chuva.

A única reclamação de Juliano é quanto ao mato alto que cerca os trilhos. Em sua opinião, o trecho está abandonado e demanda um cuidado maior por parte da Prefeitura. O Executivo de Machado informa que os serviços de limpeza e roçagem são feitos rotineiramente conforme cronograma da Divisão de Obras, sendo que, neste local, a próxima previsão é início de fevereiro. “Muitos desses serviços são de responsabilidade da concessionária, mas a Prefeitura acaba fazendo”, salienta.

 

Demolição e restauração

Em Regente Feijó, por outro lado, a municipalidade realizou, em junho do ano passado, a demolição de quatro unidades habitacionais próximas à antiga estação ferroviária. Conforme noticiado por este periódico na época, os locais eram alvos de disputa judicial após o MPE (Ministério Público Estadual) ajuizar ação solicitando a proibição de obras de desmanche no espaço, cuja liminar foi concedida pela Justiça. Todavia, em sentença proferida, a tutela de urgência foi revogada e o processo julgado extinto.

O Executivo esclarece que, após avaliação do setor de engenharia, foi apresentado um laudo onde ficou comprovado que as casas estavam “em estado precário, contendo várias rachaduras e telhado caindo e sendo utilizadas para abrigo de indigentes e usuários de drogas”. Em paralelo, denota que a administração restaurou dois barracões da antiga estação ferroviária para a implantação de uma ESF (Estratégia de Saúde da Família), que atende parte da população da cidade; e um outro onde funcionam oficinas de corte e costura e artes aplicadas para a terceira idade e a população em geral. “A Prefeitura já está em fase de planejamento para construir no local das antigas casas uma área comercial, já que o terreno fica na área central da cidade e a população clama por melhores espaços para o comércio”, explica.

 

A Prefeitura não aluga estes espaços citados. Se ocorre aluguel, é aluguel irregular

Prefeitura de Álvares Machado

 

Em defesa da memória

Em Presidente Epitácio, a ocupação da estação ferroviária por usuários de drogas motivou o Comtur (Conselho Municipal de Turismo) a iniciar um processo de revitalização do prédio, que avança para o final da primeira etapa. O assessor de imprensa do Conselho, Antonio Carlos Ferraz da Silva, expõe que a parte externa passou por reforma e pintura, enquanto a interna ganhou limpeza a jato. Nos entornos, foi feita a roçada do mato e a limpeza dos trilhos. Ele menciona que, desta primeira fase, resta apenas a restauração do teto na parte traseira do prédio. O objetivo do Comtur agora é começar o cercamento da construção, a fim de inviabilizar qualquer ato de vandalismo ou depredatório.

Antonio Carlos relata que a obra é fruto de recursos municipais e contribuições da comunidade. Por ora, já foram gastos de R$ 10 mil a R$ 15 mil na reforma, mas o orçamento total previsto para a conclusão dos reparos gira em torno de R$ 80 mil a R$ 100 mil. “Esses valores não incluem apenas contribuições em dinheiro, como também em matéria-prima, a exemplo de alguns estabelecimentos que repassam materiais que já não serviriam mais para a comercialização, mas ainda úteis para nós”, comenta.

Segundo o representante, a obra é de “fundamental importância” para a preservação da memória da cidade, considerando que a história de Epitácio passa pela estação ferroviária. Ainda é cedo para adiantar qual será a finalidade do espaço quando a restauração for finalizada, mas Antonio Carlos analisa abrir o local para eventos culturais e voltados ao turismo. “De qualquer forma, o nosso intuito é deixar que, ao final, a população decida”, pontua.

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