08 de janeiro de 2017 às 08h34 - Esporte
Imprimir
RSS

CHARANGA DOMINGUEIRA de 08-01-2017

por Flávio Araújo

 

SAUDADES DE YVETINHA PINHEIRO

Vivo dias difíceis e vocês sabem o por quê. Solidão é o que me enlaça e a saudade é o que não passa. E nem quero que passe. Yvetinha Pinheiro foi tão familiar em minha vida que quando do acidente que levou Flavinho em 1996 consegui, com a força que Deus nos dá nesses momentos, dizer no Jornal Nacional da Globo: “Pensa o homem com tristeza quanto é triste a sua sorte. Depois das luzes da vida, chegam as cruzes da morte; no entanto quão diversa é a verdade referida: são luzes que tem a morte, são cruzes que tem a vida”. Este verso Yvette recebeu do poeta de “Luar do Sertão”, Catulo da Paixão Cearense. Tenho guardados e reli nestes dias os pequenos bilhetes que minha companheira deixava sobre a mesa do café da manhã em nossos primeiros anos de feliz convivência amorosa. Como professora ela trabalhava cedo e futebol sempre termina tarde. Ela deixava então todos os dias um bilhetinho com uma flor junto ao meu café matinal. Nesses bilhetes, com palavras exóticas e abreviaturas está a personalidade mais intimista da pequena/grande mulher que deixou este plano no penúltimo dia do ano. Pretendo, e se Deus me der tempo, publicar na web tudo o que ela deixou. Alguns romances, ensaios ditados por escritores do nível de Guimarães Rosa, Monteiro Lobato, Casemiro Cunha, Godofredo Rangel; poemas são mais de Gonzaguinha, Gonzagão, Cassiano Ricardo, Pixinguinha, Catulo e muitos outros que desfilarão no blog. Mas, Yvette escrevia e muito bem por iniciativa própria e dou um exemplo. Víamos um filme e divergimos sobre um tema em discussão entre os personagens. Creio que por brincadeira, já que nunca tivemos uma rusga em nossa convivência de mais de três décadas, disse que ela estava agindo como uma verdadeira “casca grossa”, atitude da personagem do filme. Na manhã seguinte encontrei junto ao meu desjejum estes versos: “Fui dormir astribuística (*). Fiquei com um pé na fossa quando você – meu amado – me chamou de casca-grossa! Se eu disser: “é a vó” será mesmo um “barato”: na verdade não a conheço e eu seria grossa de fato. Mas se você, que é tão gentil, diz um desaforo a mim, penso que meu modelo (feio) está sendo seguido assim! Não se perca nos meus passos! Conserve sua doçura. Sou égua-chucra, me dome. Não com sal; com rapadura. Uma coisa aqui repito e disso pode estar certo: amo você! E eu o quero de mim cada vez mais perto!

Mas, agora, não resisto, vou dizer uma vez só, bem devagar e baixinho: “casca-grossa é a vó!!!”

(*) Não vá ao dicionário. É neologismo da própria.

Flávio Araújo, jornalista e radialista prudentino escreve aos domingos neste espaço.