03 de janeiro de 2017 às 08h54 - Cultura
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Glaucia Nasser trata História do Brasil em “Um Lugar”

por OSLAINE SILVA-Da Redação

Disco, que nasceu a partir de uma homenagem aos 110 anos de JK, tem a ver com a situação do país; cantora conta que Menescal a fez perceber a grandeza deste governante ao dizer-lhe: “Por causa do estímulo dele nos atrevemos nos primeiros acordes da Bossa Nova”

 

O ano de 2016 foi muito difícil! E caiu como uma luva a última produção musical da cantora mineira Glaucia Nasser, lançando o volume 1 de “Um Lugar”, que tem tudo a ver com a caótica situação nacional. Segundo ela, o trabalho nasceu no meio da turnê do disco que havia lançado em 2015, “Em Casa”, onde homenageou sua terra natal, Minas Gerais (MG). Ela conta que as ideias vieram aos poucos. E antes mesmo de começar a gravá-lo, começou a se envolver literalmente com a história de Juscelino Kubitscheck ao fazer uma apresentação com o ícone da Bossa Nova, Roberto Menescal, em São Paulo em uma homenagem aos 110 anos de nascimento do ex-presidente do Brasil.

Para cantora mineira de Patos de Minas, Glaucia Nasser, Música Popular Brasileira educa o ouvido, estreita o conhecimento e valoriza a cultura

Ela conta que Menescal a fez perceber a grandeza deste governante ao dizer-lhe: “Por causa do estímulo dele nos atrevemos nos primeiros acordes da Bossa Nova”.

“Pronto, foi uma das inspirações para enquanto seguia carreira, me engajar neste trabalho grandioso que trata de questões da história nacional e junto com minha sobrinha, criei um espetáculo dedicado a JK, intitulado ‘Uma Noite com Juscelino’ rodando por todo o país. E partir daí, nasceu o primeiro volume de ‘Um Lugar’”, expõe a artista.

“Eu brinco que o Juscelino me atropelou, como era de costume dele, o perfeito furacão… foi muito interessante na minha vida artística. À medida que fomos fazendo esse espetáculo, em um momento terrível do Brasil, fui me apaixonando por esse trabalho, colocando toda minha atenção, estudando a história da nossa nação”, destaca a cantora.

 

“Um lugar”

A música que abre o disco com violão e percussão dramática com texto fundamentado em Dom Bosco o tal “lugar” representa o sonho da criação de Brasília do personagem principal da jornada o ex-presidente Juscelino Kubitscheck.

Glaucia comenta que ela pode estar desvirtuada, mas de todos os estudos que já fez, dos mais holísticos ela foi construída para reunir todos os povos. Uma ponte para um país mais justo e igualitário, mais integrado. Na canção ela fala desse sonho brasileiro que ainda precisa ser alcançado nesse “lugar” que reúne e concilia todas as contradições do país com pessoas que descendem de povos de todo o mundo, do Brasil, fatos absolutamente naturais…

“Brasília teria a simbologia de ser brasileiro… Um cunho até político sim, mas não partidário, como dizia Juscelino ‘recusando essa ideia de direita e esquerda a humanidade caminha para frente’… sabe é muito interessante, ele era um democrata e colocou ao seu lado um comunista para desenhar Brasília… é muito interessante estudar essa história e perceber que nossa essência brasileira é de contradições”, acentua.

 

Mais de um lugar

Na sequência, as palavras de JK de que “a gente pode ser aquilo que quiser” vem em “Vivalda”, canção autoral que carrega a essência de Glaucia em parceria com Tiago Vianna e Alexandre Lemos, com arranjos mais suaves, ao contar a história de como pensavam na integração nacional, em construir uma rodovia como Belém-Brasília pelas mãos dos nordestinos, a quem se referia como os “grandes integracionistas do país”.

A terceira faixa é “Vide, Vida Marvada”, de Rolando Boldrim, que narra a estruturação do Brasil como país. Como era positivo se esforçar para realizar em cinco anos de agricultura para se obter 50 de fartura. Em como o Brasil estava na vanguarda, em seus anos dourados, da música, do cinema novo ao futebol, passando pela arquitetura, engenharia e o desenvolvimento nacional.

“Lamento Sertanejo”, de Dominguinhos e Gilberto Gil, evoca novamente o povo nordestino, e tenta remeter à narrativa de JK quando foi conferir a situação da seca de perto e como sua experiência e comunicação faziam com que nos sentíssemos parte daquilo.

O trabalho encerra com o clássico “Bola de Meia, Bola de Gude”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, que Glaucia traduz os valores que amparavam JK, caráter, bondade, alegria e amor. “Ele traduziu em frases e palavras a alma do nosso país. Essencial para se tornar uma nação. A estrutura de crença de servir ao outro, primeiro como médico e depois como presidente. E, finalmente, de que não tivéssemos uma ditadura no meio do caminho, mas a prorrogação do que era semeado naquela época, nossos frutos como país, atualmente, seriam bem mais doces!”, exclama a brasileira.

 

Caminhando na arte

Ha mais de uma década, começou a trajetória artística da cantora mineira de Patos de Minas, Glaucia Nasser, que frisa que a MPB (Música Popular Brasileira) educa o ouvido, estreita o conhecimento e valoriza a cultura.

Tudo começou com ela registrando músicas de um amigo, até que um dia o convidou para gravarem e ele então disse que se era para fazer isso, que teriam que fazer bem. Ela então se mudou para Belo Horizonte (MG) para fazer aulas de canto durante um ano, morou nos Estados Unidos, Inglaterra, retornou ao Brasil, até que recém-mãe pela primeira vez, se deu conta de que o caminho de sua vida era a música.

Era o ano 2000, e a decisão de “preciso cuidar de mim” a levou ao primeiro trabalho, como intérprete, em 2004. “Quanto mais me voltava para mim mesma, mais a música voltava a se fazer presente, como ingrediente fundamental da minha existência. Fiz alguns shows e fui convidada para fazer parte da coletânea ‘Acoustic Brazil’ pelo selo Putumayo, para figurar entre Gal Costa, Caetano Veloso, e outros no disco, onde a canção ‘Lábios de Cetim’ foi uma das escolhidas, inclusive para o filme ‘O Visitante’, indicado ao Oscar”, expõe.

 

Amor à MPB

A cantora comenta que essa incursão encantou o americano multipremiado percussionista Sammy Figueroa, que decidiu iniciar uma parceria única e inédita com ela, resultando em um disco único e empolgante, “Taslisman”. Esse trabalho, inclusive, carrega um simbolismo importante, pois recebeu a chancela do lendário produtor Roy Cicala pouco antes dele falecer.