Distanciamento afetivo

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 19/07/2020
Horário 06:08

Numa sexta-feira qualquer, depois da correria no trabalho com as pressões pelas metas a bater e pela ansiedade daí decorrente, ele queria ficar a sós consigo, quieto, sem nada fazer. Era adepto do “sextou” – um dos memes internetês. Naquele dia, pra ajudar, tinha saído um pouco mais tarde que o normal. Tivera umas querelas com colegas do trampo para dirimir. Ambiente competitivo com gente nem sempre ética ou bem-resolvida agrava tudo. No trabalho, a pessoa não deixa de ser gente, mesmo que os gestores o queiram. E as conexões humanas cobram a sua fatura, especialmente, quando negligenciadas.
E aí estava outro ponto que lhe cozinhava os miolos: a sua casa. A família estava cheia de planos para os próximos dias. A esposa queria levar as crianças ao parque e passar um dia na casa da tia Socorro lá no sítio. Era bom que elas saíssem um pouco da cidade e tivessem contato com a natureza. Sem contar que a tia era pessoa queridíssima e já não a via há anos. Mas ele, sinceramente, não estava disposto. Queria entregar-se à preguiça. Nem diria ao ócio, mas à ‘vadiagem’ mesmo. Dois colegas do serviço o chamaram para uma tarde de futebol na chácara. Ficou animado, mas não o suficiente para tirá-lo de casa. Inventou desculpa qualquer.
O sentimento de exaustão física e mental o dominava. Até mesmo a relação com a esposa não andava muito bem. Ela falava e cobrava, enquanto ele calava e sequer se defendia, o que a deixava ainda mais enfurecida. A história de ir para o sítio era a tentativa de tê-lo por perto, como fosse um laboratório, e provocasse uma conversa que há tempos não tinham. O diálogo era truncado e basicamente coisas das crianças, contas a pagar, consertos a fazer, mercado a visitar, e cobranças pessoais. Ele não tinha tempo para a família.
E o pouco tempo que em casa Fernando tinha era todo consumido em games. Ele se irritava com as crianças querendo a sua atenção; elas atrapalhavam o seu jogo. Cobrava de Ingrid que fosse entreter as crianças e deixá-lo em paz. Afinal, ele já fazia muito. Estava cansado, passava o dia trabalhando para não deixar faltar nada a eles, etc. Pois é, Fernando querendo não deixar faltar nada à esposa e aos filhos, deixava faltar tudo. Negava-se; era uma presença física ausente. Havia um muro entre os integrantes daquela casa. O teto que os unia não foi suficiente para edificar um lar. Pior. Parece que nenhum membro da casa se dispõe a se enxergar como está. Transferem responsabilidades o tempo todo e a cada nova palavra distanciam-se mais. Pelo visto, nem sítio, nem chácara, nem conversa, nem nada... Logo, se nada mudar, nem o mesmo teto os manterá.
Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!
 

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