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Entre um sapato e outro

Diante de um provocado entusiasmo perante a vitrine de sapatos, não se deve desperdiçar os que estão nos pés. Algo tocou em nós mesmos, quando se deu a escolha por eles. Seguimos em frente, querendo que chegasse a hora pelo seu uso. Calçando o sapato no dia a dia, vamos experimentando o bem estar do formato dele, entrando em sintonia. E assim, cria-se uma musical dança harmônica, em cumplicidade com o tempo. Sapatos e pés identificando-se.

O couro suavemente esticando com o tempo. Flexibilidade, resistência, toque e textura são características nobres do contato entre um e outro. E a convivência tão suave, tornando inevitável o gasto do solado. Entre um sapato e outro, há que se ter um tempo. Quando podemos desprezar algo tão compatível com nosso formato? Por que entre um sapato e outro, preenchemos instantaneamente as lacunas com muitos pares? Intolerantes ao tempo de espera, podemos escolhê-los pequenos, largos ou grossos, causando assim, possíveis bolhas ou muitos desconfortos.

A pressa, euforia, intolerância e insatisfações provocam ferimentos. Entre um sapato e outro, se deve dar espaços para significar a ausência, gratidão pela presença, valor e sintonia pela existência da convivência. Entre um sapato e outro, quantas memórias e histórias. Caso não tenha gastado o solado e engraxado um monte de vezes, o couro ressecado pelo tempo, certamente não vivenciou caminhadas pela labuta, quando das perdas e ganhos, alegrias e tristezas ou frustrações das mais diversas, evidenciaram.

Imaginaram quanto tempo o jovem Ulisses, em sua venturosa viagem de volta à ilha de Ítaca, enfrentando o bravio, os ciclopes, dragões, e o canto traiçoeiro das sereias, permaneceu? O poema “de volta a Ítaca” cultua esse universo para falar de sentimentos, emoções, e sobre o tempo. Saliento o envolvimento à que somos seduzidos, como nos cantos das sereias, pelas redes sociais, constituindo as desenfreadas atuações, onde a espera pelo tempo do amadurecimento inexiste.

Hoje, todos têm muita pressa de realização de desejos. Penélope, na mitologia grega, é esposa de Ulisses. Por 14 anos esperou a volta de seu marido durante a Guerra de Troia. Prometida pelo rei aos outros pretendentes, pois achavam que Ulisses havia morrido, fez um acordo que, ao terminar seu bordado, casaria. Tecia o dia inteiro e a noite desmanchava. Uma mínima frustração, entre um sapato e outro, o preenchimento é rápido e o conteúdo vazio. Muitas vezes, o tempo e a espera podem ser recompensador. Ah! O tempo!

 

 

 

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