Mudanças geracionais

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 23/01/2022
Horário 06:05

 Eu acho muito curioso as mudanças marcantes entre gerações. Durante as férias de janeiro tive a oportunidade de pensar um pouco sobre isto nos meus encontros com a Marina, minha neta de 14 anos. Percebi o quanto ela mudou em poucos meses. Ela está bastante crítica, interessada em discutir temas polêmicos e transformou-se numa pessoa muito mais pragmática, apesar de extremamente ansiosa (calma lá!). E o mercado editorial já percebeu essas novas tendências porque a geração dela gosta de ler e tomar posição como no caso das questões feministas e ecológicas. Encontrei nas livrarias uma prateleira inteira de livros feministas para a juventude!

Talvez eu me interesse pela geração dela porque também fiz parte de uma  juventude que viveu muitas mudanças geracionais. Quando eu tinha a idade da Marina eu morava em São Paulo, onde vivi intensamente as mudanças no país. Eu fazia parte do que o livro de Élio Gaspari (“A ditadura encurralada”) denominou de “geração de 78”, a juventude da abertura política no Brasil. No mundo das mercadorias eu vivi a transição dos produtos eletro-eletrônicos. Talvez as pessoas mais jovens não consigam imaginar o que seria a vida sem eles.

Durante a minha existência pude acompanhar a transformação do cotidiano das residências com uma avalancha de eletrodomésticos. A geladeira, por exemplo, tinha uma importância menor quando eu era criança. Era comum as casas serem abastecidas por um leiteiro, que entregava o leite in natura, embalado em garrafas de vidro, e levava os vasilhames vazios deixados à porta das casas pelos fregueses na noite anterior. Os frangos eram comprados vivos, e ficavam ganhando peso no fundo do quintal, até o dia de irem para a panela. Enfim, a chegada da geladeira permitiu o armazenamento de produtos alimentícios perecíveis por vários dias. A partir de então, muitas famílias passaram a fazer suas compras apenas uma vez por mês, em um grande supermercado. As famílias de maior poder aquisitivo mudaram-se para condomínios fechados distantes dos centros comerciais, e foram responsáveis pela associação crescente entre o cartão de crédito, a vida doméstica e o mercado de consumo. Mas a atitude consumista voraz que se instaurou logo em seguida não dependeu apenas do poder aquisitivo, mas de uma ideologia do desperdício presente em todas as camadas sociais.

Uma consequência do crescimento desenfreado do consumo é a pressão crescente para o uso cada vez mais intensivo, e muitas vezes desnecessário, dos recursos naturais do planeta. Daí eu me reencontro com a geração da Marina. Vamos juntos salvar o planeta?

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