Quando... (um ode a Bruno Pereira)

OPINIÃO - Raul Borges Guimarães

Data 19/06/2022
Horário 04:30

Nos últimos dias, vivi os mais diversos sentimentos ao acompanhar o noticiário do desaparecimento do indigenista, Bruno Pereira, e do jornalista britânico, Dom Phillips. Foi o vídeo que viralizou nas redes sociais em que Bruno Pereira, no meio da mata, entoa um cântico no idioma Kanamari, que me reacendeu a força para seguir em frente. 
Segundo o presidente do Conselho Distrital de Saúde dos Kanamari, a música cantada por Bruno conta a história de uma mãe arara chamando seus filhotes na porta do ninho para lhes dar comida no bico, como a chamar Panã - o espírito do pássaro falante. 
Além de parceiro e amigo, Bruno era um irmão do mato, dos marubo e de todos os povos indígenas do Vale do Javari. Ele é parte de uma geração de indigenistas que faz questão de estar junto com as comunidades para aprender como os povos vivem, misturando-se com os índios, comendo a comida deles, dormindo como eles dormem. Tudo isso pode ser resumido numa única palavra - confiança, que diz respeito à fé que se coloca em alguém... Mas quando se fala em povos indígenas isolados e de contato recente, o conhecimento técnico também é fundamental. E Bruno Pereira reunia tudo isso: conhecimento técnico, confiança e amizade.
Como diz um canto xamã do povo Kanamary, agora ele levita até as aldeias sobrenaturais, como uma espécie de flauta que ressoa nos rios Japurá, Juruá e Javari. Deixo aqui uma canção para Bruno, Maxciel e tantos outros indigenistas que deram suas vidas pela defesa dos povos indígenas da Amazônia. 

Quando 
da primavera surge o inverno
da chuva, o vento

Quando
do seu canto surge o grito
do espelho, o espinho

Quando 
da esperança surge o medo
da vida, o luto

Quando
da paz surge a busca sem fim
da sombra, o guia

Recolho a dor profunda
Rabisco os pergaminhos
Contemplo o frio silêncio do seu sorriso
 

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