Você Brasil (Jorge Barbosa)

António Montenegro Fiúza

Eu gosto de você, Brasil,
porque você é parecido com a minha terra.
Eu bem sei que você é um mundão
e que a minha terra são
dez ilhas perdidas no Atlântico,
sem nenhuma importância no mapa.
Eu já ouvi falar de suas cidades:
A maravilha do Rio de Janeiro,
São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.
Ao passo que as daqui
Não passam de três pequenas cidades.
Eu sei tudo isso perfeitamente bem,
mas você é parecido com a minha terra.
Jorge Barbosa (extrato)

Das muitas vivências até esta experimentadas, é interessante notar as diferenças tamanhas, em dimensão, de cada um dos países da lusofonia e como, inexplicavelmente, mantêm várias similaridades que começam com a língua comum, mas transcendem-na e abarcam todas as outras facetas do quotidiano. 
Falamos de países, como São Tomé e Príncipe, com pouco mais de 200 mil habitantes e de realidades como o Brasil, com 212 milhões de pessoas. Falamos de países tropicais africanos, sul-americanos e asiáticos, de países que se situam num único grau de latitude e de outros que se estendem por vários fusos horários.
Jorge Barbosa, poeta claridoso  cabo-verdiano, declamou as semelhanças entre o seu pequeno torrão e o grande Brasil e exaltou o seu amor por esse país, o qual só poderia conhecer de fotos e de histórias contadas por outros, e não por experiência própria. Referiu-se às origens comuns e ao jeito melodioso, como em cada país, se falava a mesma língua: o português; ao samba, às batucadas e aos cateretês que, surgidos nas Terras de Vera Cruz faziam sucesso nas ilhas do Atlântico. 

« O que é – é que lá tudo é à grande
e tudo aqui é em ponto mais pequeno…» idem

Ainda se diz, quase um século depois, que São Vicente é um Brazilim, na doce voz de Cesária Évora, quando de sexta-feira a quarta-feira, se comemora o carnaval, em todas as ruas e todas as avenidas, em todas as escolas e instituições e dança-se sem parar, numa democracia da alegria, que não faz distinção de idades, géneros, crenças ou renda mensal. Quando, em cada grupo carnavalesco, existe uma ala repleta de baianas, rodando os seus vestidos rendados e exibindo os seus cestos carregados de doces; quando se recontam as telenovelas brasileiras e se exibem os corpos esculturais das rainhas de bateria.

«Queria ver de perto as coisas espantosas
que todos nos contam de você,
assistir aos sambas nos morros,
estar nessas cidadezinhas do interior
que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,
queria deixar-me arrastar na onda da Praça Onze
na terça-feira de carnaval.» idem

A lusofonia é assim composta, por identidades prenhes de semelhanças e unidas por um amor ilógico, mas imensurável.

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