"O autismo não é um livro que você lê e fala: ‘acabou aqui’. Não! É um novo caminho todos os dias", diz a mãe

Foto: "O autismo não é um livro que você lê e fala: ‘acabou aqui’. Não! É um novo caminho todos os dias", diz a mãe

ENTREVISTA

“É um sentimento, uma mistura de conquista, mas ciente de que ainda temos caminhos para vencer”

Edineusa Garcia, vendedora

  • 18/08/2019 04:12
  • THIAGO MORELLO - Da Redação

O TEA (Transtorno do Espectro Autista), popularmente conhecido como autismo, engloba diferentes condições marcadas por perturbações do desenvolvimento neurológico, e todas elas relacionadas com a dificuldade no relacionamento social. Isso faz com que a pessoa portadora tenha que lidar com algumas limitações ao longo da vida. Mas imagina só, mesmo diante de todas as controvérsias, ainda conseguir chegar a patamares elevados, como se formar na faculdade?

Na região de Presidente Prudente, a vendedora Edineusa Garcia, de 42 anos, pode sentir o gostinho de vitória, ao conseguir tal feito com o filho Rafael Souza Garcia, de 20 anos, que possui autismo e, em julho deste ano, se formou como tecnólogo em Jogos Digitais. Aliás, a conquista não garante somente felicidade a ela, mas a todos, uma vez que Rafael é o primeiro autista a concluir uma graduação na região.

Mas quando ele tinha 2 anos e recebeu o diagnóstico, Edineusa jamais poderia imaginar que esse dia chegaria, como ela mesmo diz. Mas chegou. E com o jornal O Imparcial ela compartilhou parte dessa trajetória, falou sobre o TEA e ainda deixou um pedido à sociedade. Confira na íntegra:

O Imparcial: Como foi receber o diagnóstico e saber que o Rafael possuía autismo?

Edineusa: Na idade que geralmente era para ocorrer uma interação, por volta de 1 ano e meio e 2 anos, ele não falava papai e mamãe, mas falava, por exemplo, Itaú e Bradesco, enfim, palavras difíceis e que não estavam relacionadas ao cotidiano dele. Então achei estranho. E ele brincava muito com números. Deixava os brinquedos todos enfileirados. Ele não falava as coisas, mas ele lia e escrevia, mesmo tão novo. Na época, isso em 2001, o pediatra ainda tinha uma dificuldade de diagnosticar o TEA. E isso dificultou muito. Mas quando levamos ele ao médico, no corredor mesmo, acompanhado pelo doutor, ele foi lendo todas as placas. “Sala 1”. “Sala 2”. E eu lembro que o médico abaixou, deu um abraço nele e me falou: “ele tem autismo”. Na hora, minha reação foi: “e qual remédio toma?”. E foi aí que ele me respondeu que não existe remédio. Existe estímulo, que deve ocorrer diariamente. E, de lá pra cá, tudo o que procurei foi estimulá-lo.

E como foi toda essa caminhada até hoje?

Eu não caminhei sozinha. Meu marido me apoiou muito, toda a família. Mas o preconceito foi o mais difícil. Eu procurei uma terapeuta que cuidasse de mim, para que eu cuidasse do Rafa. Na época de iniciar a escolarização, por alguns problemas, colocamos ele numa escola particular. Enfrentamos situações com pais que tiraram os filhos da turma, só porque ele estava lá. Os autistas, eles são sensíveis. Quem mostra que quer o bem eles se aproximam. E teve um caso específico que uma aluna, todo dia de manhã, pegava na mão dele pra subir a escada até a saída. A mãe dela tirou ela do período em que estudavam e colocou em outro, só para ela não continuar com isso. E sempre foi muito difícil. Sem muita informação ainda, a gente teve também até que procurar um profissional para ensinar os professores. Foi difícil explicar o que era sentimento, porque até então ele só conseguia aprender aquilo que era concreto. E até hoje ele escreve diferente, tem sua limitações, mas precisamos mostrar que ele é uma pessoa como qualquer outra.

Quando foi que você sentiu as coisas melhorarem?

Na verdade não melhorou pra gente, mas melhorou pra sociedade em si, quando começou a sair matérias falando sobre, quando a mídia começou a falar e divulgar o autismo como parte da sociedade. Filmes, novelas, enfim, quando o TEA virou conversa do dia a dia. Muitos achavam que era uma coisa de outro mundo. Porém, dentre todos os graus do autismo, existe uma pessoa que quer e sabe se comunicar, mas do jeito dela.

Como foi a escolha do curso dele?

Desde os 4 anos eles sempre teve aptidão por eletrônico. Lembro que compramos uma televisão nova, nessa época, e a gente não consegui usar porque tinha várias senhas de bloqueio. Ele com 4 anos pegou o controle, não falava, foi lá e colocou todas as senhas. Foi mexendo, fuçando e tudo funcionou. Rádio, não funcionava? Ele mexia e dava um jeito. Então, ele sempre teve essa preferência por eletrônico, por tecnologia. Como ele frequenta a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), nós tivemos uma orientação do que seria legal pra ele. E ai ele mesmo chegou pra mim e disse: “mãe, eu quero fazer Jogos Digitais”. Fez o vestibular, estudou e deu certo. De uma turma de 26 pessoas, só quatro de formaram e ele é um deles.

Hoje você é mãe do primeiro autista da região a se formar em um curso. Qual o sentimento?

É um sentimento, uma mistura de conquista, mas ciente de que ainda temos caminhos para vencer. Mas eu olho para trás, vejo a trajetória e fico até emocionada. O autismo não é um livro que você lê e fala: ‘acabou aqui’. Não! É um novo caminho todos os dias. É a descoberta de novos caminhos a percorrer. Todos os dias ele mostra uma luz no fim do túnel. E o Rafael também mostra isso. Ele mostra que está feliz por ser cuidado. Ele diz: “olha mamãe, eu aprendo assim”. Então, eu olho o autismo dessa forma, como um caminho que não tem fim. E eu preparo o Rafael para que ele possa viver da melhor forma diariamente, que possa casar, ter filhos, enfim, construir a vida dele.

Qual mensagem você gostaria de deixar para as pessoas, a sociedade em geral?

A sociedade precisa conhecer ou ler mais sobre o autismo. A importância de ler e ver sobre o autismo é sinônimo de um conhecimento enorme. É um enriquecimento para a alma de humanização. E àqueles que possuem alguém na família, o apoio é o melhor remédio. Cada conquista, cada passo a mais, a família tem que estar ali.