Barba de estimação

O Espadachim, um cronista a favor do quanto melhor, melhor

OPINIÃO - Sandro Villar

Data 03/05/2020
Horário 06:20

Fazia muito tempo que o Epaminondas não cortava a barba, talvez desde 1959, quando o camarada Fidel Castro desceu de Sierra Maestra para assumir o governo cubano, depois de apear o ditador Fulgêncio Batista do poder.  Epaminondas - Epa, para os íntimos - tinha o maior orgulho de sua barba. Era barba de estimação, dessas de fazer inveja ao chanceler Ernesto Araújo.

De tão longa, a barba o deixava com cara de profeta, parecendo o Charlton Heston interpretando Moisés em Os Dez Mandamentos.

 Alguns amigos achavam que Epa estava exagerando - por cultivar a barba por tanto tempo - e com eles fazia coro sua mulher Julieta, que não via nele nenhum Romeu. Por causa da barba, recebeu o apelido de Barba.

“Os tempos são outros, até a China se abriu para o mundo, barba grande assim já era, passou esse tempo, menos no Brasil e em Cuba”, dizia um amigo, mas ele fazia muxoxo, dava de ombros (expressão esquisita, hein?) e continuava com a barba grande.

Afinal, graças à barba ficou conhecido ainda mais depois de fazer comerciais de televisão pelos quais ganhou polpudos cachês. Em suma: a barba de estimação virou uma mina de ouro para Epa.

Mas, como até doce de leite enjoa e satura, ele pôs as barbas de molho e acabou se convencendo de que havia chegado a hora de raspar a barba. Pesou na decisão dele o fato de que já não era mais convidado para fazer comerciais, além, é claro, das gozações dos amigos.

Epaminondas queria fazer uma surpresa à esposa e aos amigos e, sem alarde e na maior surdina - parecendo o governo nos conchavos acertados com os aliados no Congresso -, entrou na barbearia do seu Toninho. “Corta tudo”, ordenou ao experiente barbeiro, que não praticava barbeiragens com a navalha e a tesoura nas mãos.

Depois de quase meia hora, Epa estava com a cara mais lisa que bunda de bebê. O barbeiro fez um serviço perfeito, só não completando a famosa trilogia porque fez apenas barba e bigode, sem cortar o cabelo. De rosto limpo e bem escanhoado, Epaminondas foi para casa no começo da noite.

Entrou sorrateiramente na residência sem avisar Julieta, que preparava o jantar. Ele costumava chegar tarde em casa, sempre na calada da noite, quando nem todos estão calados.

Como queria fazer uma surpresa à mulher, naquele dia chegou cedo e foi direto para o quarto. Se enrolou no lençol e fingiu que dormia.

Antes não tivesse feito nada disso. Depois de preparar o jantar, Julieta entrou no quarto e, tocando o ombro do marido, falou baixinho: “Carlão, acorda, vai embora, o Barba está pra chegar, ele prometeu voltar mais cedo hoje”. É nisso que dá querer surpreender Julieta sem ter carisma de Romeu.

DROPS

Se o homem tivesse sete vidas como o gato, a reencarnação seria desnecessária.

Este é um planeta de expiação e de espionagem.

Rapel e rapa, o primeiro é esporte radical e o segundo é prejuízo para camelôs.

Os camelôs vendem de tudo, exceto camelos.

Quem nunca comeu melado quando come aumenta a taxa de glicose no sangue.

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