De todo coração

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 10/03/2019
Horário 10:30

Os ritos nos organizam. Em tempos de instabilidades, nada melhor que manter costumes associados às raízes da própria existência. Em derredor tudo poderá desmoronar, mas dentro haverá calmaria. O inverso também tem sentido. Pode o mundo (raro, claro!) estar em plena paz e no interior, o ser humano, em profunda convulsão e guerra. A linha estabilizadora poderia ser um objeto a buscar ou um objetivo a alcançar. Cada pessoa guarda em si sua singularidade e verdade. No assombramento da cultura que parece ignorar o outro, e toda referência à negatividade (ausência, vazio, sofrimento), é bom não se perder de si mesmo.

Na quarta-feira, a igreja iniciou a quaresma. Um caminho litúrgico-existencial que desembocará na páscoa. Começando com as cinzas – símbolo da fugacidade da vida–, fazendo penitência e desejando sincera e profunda mudança de mentalidade e de atitudes, o fiel alcançará a vida nova. A busca do essencial da vida, a eliminação das vãs ilusões – especialmente alimentadas pela cultura do descartável, da indiferença, e do bem-estar–, o justo juízo de si mesmo e dos outros, a abertura para o transcendente e a não-absolutização do material são marcas desse processo. A isso referiu-se o Papa Francisco:

As cinzas são “um sinal que nos faz pensar naquilo que trazemos na cabeça. Frequentemente, os nossos pensamentos seguem coisas passageiras, coisas que vão e vêm. Os grãos de cinza pretendem dizer-nos, com delicadeza e verdade: de tantas coisas que trazes na cabeça, atrás das quais corres e te afadigas diariamente, nada restará. Por mais que te afadigues, não levarás contigo qualquer riqueza da vida. As realidades terrenas dissipam-se como poeira ao vento. Os bens são provisórios, o poder passa, o sucesso declina”.

“A cultura da aparência, hoje dominante e que induz a viver para as coisas que passam, é um grande engano. Pois é como uma fogueira: uma vez apagada, ficam apenas cinzas. A Quaresma é o tempo para nos libertarmos da ilusão de viver correndo atrás de pó. A Quaresma é descobrir que somos feitos para o fogo que arde sempre, não para a cinza que imediatamente se consome; para Deus, não para o mundo; para a eternidade do Céu, não para o engano da terra; para a liberdade dos filhos, não para a escravidão das coisas. Hoje podemos interrogar-nos: vivo para o fogo ou para as cinzas?”

Três armas espirituais nos são propostas para o combate: jejum, esmola/caridade, oração. Quer-se com isso restabelecer a harmonia dos relacionamentos. Jejum: eu comigo mesmo. Esmola/caridade: eu com o outro. Oração: eu com Deus. Fazer jejum de tudo quanto nos escraviza. Há tantas coisas, situações e pessoas que se tornaram prisões das quais já não sabemos nem conseguimos sair, verdadeiros laços que nos amarram. A libertação virá da fome de/da verdade que cultivarmos em nós mesmos.

A esmola/caridade é, sobretudo dar nosso tempo a quem de nós precisa; ela nos salva do engano e da autossuficiência. Quando nos aproximamos da ferida do nosso próximo com verdadeira compaixão (empatia) descobrimos que também nós estamos feridos e necessitados. As pessoas valem mais do que aquilo que têm. Muito acumular não sacia o coração (que tem sede de vida, sentido, verdade!). A oração é verdadeiro diálogo na intimidade do silêncio e da escuta; ela nos torna capazes de receber tudo quanto Deus quer nos dar; sua Palavra se torna cura a evidenciar todos os nossos enganos e mentiras; é um encontro de amigos. Olhemos para o Alto e sem fingimentos busquemos o Senhor. Que Ele nos converta de todo o coração.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

 

 

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