Em nome da rosa

As máscaras são contemporaneamente usadas para nossa proteção. Uma realidade em que estamos vivendo que faz parte do nosso cotidiano nesse ano 2020. O cenário nos parques, praças, avenidas, enfim, no horizonte, vem acompanhado pela visão de humanos, cujas bocas e narizes estão ocultos pelo uso frequente de máscaras. Pela boca ou oralidade, iniciamos uma trajetória e desenvolvimento de toda uma vida.

O nascimento é marcado pela cesura entre uma vida intrauterina “perfeita” e a pós-uterina, ou seja, pós-nascimento. É um processo muito complexo, pois é de fundamental importância para a constituição do psiquismo. A continuidade do ser se dá pelo encontro da boca-seio. Espera-se que a mãe seja suficientemente boa, para que o recém-nascido sinta, sensorialmente falando, como se ainda estivesse no útero. Uma fusão de pleno amor e gradativamente vai sendo preparado para elaboração desse trauma do nascimento.

A temporalidade e espacialidade vão encarregando-se de que haja infinidades de transformações, espera-se, diante de outros lutos como os da infância, adolescência, etc. A mulher transforma-se e ganha espaço, mas a passos de tartaruga. Seu território ainda demanda pela marcação. Há certos conceitos, dogmas e convicções amalgamadas, que independem somente de fatores intrínsecos. Sonhando sobre as máscaras no rosto das mulheres, acordei despertada pela rosa vermelha. Perambulando lá pelas bandas da Somália, ela chega tímida e constrangida. E foi, aproximando-se de mim, já narrando que adoecida estava.

Onde dói? Perguntei. Ela respondeu:- “Em todos os lugares. Dói a cabeça, coração, pulmão, pernas, braços e até os fios de meus parcos cabelos. Desde quando tudo dói? Perguntei. Ela respondeu:- “Não sei, ao certo. Só sei que fui aos poucos falando nada. Acho que me fechando e aprisionando minha voz. Quase não me escutando tampouco me ouvindo. Como se usasse essa máscara que estou usando agora, sempre. Na convivência com meu esposo, fui perdendo a visão, olfato, tato, paladar e audição. Perdi o prazer pela vida. Estou confusa, já desconheço minha essência. Já não sei se sou e o que sou. É possível, encontrar-me ainda, pelo caminho do horizonte? Minha maior dor é ver minha rosa vermelha sendo podada. Elas estão sempre com seus lindos botões aflorando. Quando abrem, no momento de sua mais bela explosão, ele a poda. Imploro, imploro mais um pouco, para que me deixe ficar com ela, para poder contemplá-la. E ele as joga no lixo. Perdi minha voz, me acode”.

Estamos primitivos sobre a “cura” da violência que testemunhamos todos os dias. Crianças, mulheres, idosos, deficientes físicos, etc., sofrem pela discriminação e preconceitos. A violência doméstica cresce em progressão geométrica e é uma realidade assistida dentro de lares des-integrados. Filhos sofrendo bullying pelos próprios pais. Esposas sendo ridicularizadas, maltratadas e sendo impedidas em seus direitos de existência. São podadas e amputadas pelo direito ao prazer pela vida.

 

 

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