Em novo filme, cineasta prudentino aborda os traumas da pandemia

Vicentini Gomez, cineasta

VARIEDADES - OSLAINE SILVA

Data 28/04/2020
Horário 05:44
Divulgação - Na madrugada de domingo, Vicentini terminou o tratamento zero do roteiro, com 80 páginas Foto: Divulgação - Na madrugada de domingo, Vicentini terminou o tratamento zero do roteiro, com 80 páginas

Neura é um ato que sufoca e massacra o pensamento, provocando traumas e ou loucuras tantas. E foi esta loucura e talvez o trauma de estar “preso” entre quatro paredes, por conta da pandemia pela Covid-19, que levaram o cineasta prudentino, Vicentini Gomez, a soltar o grito da criação. O grito da ousadia. E está em preparação mais um filme, com previsão de 80 minutos, para festivais e TV, qual está registrado com três títulos, sendo um que ele gosta muito: “Devaneios - Uma Alma Perdida na Pandemia”. Já em processo de produção, hoje haverá a primeira reunião presencial, todos com máscaras e EPIs (equipamento de proteção individual), necessária para definição de datas e cronograma de filmagem.

Qual a função do artista?
Estar conectado com o seu mundo. Estar atento aos acontecimentos atuais e aos que fazem a história. Aqui na produtora, em especial nas produções cinematográficas, temos como ‘visão’ da empresa Palha Casa de Criação: ‘Criar, inventar e reinventar produtos audiovisuais inspirados em conteúdos históricos e científicos, tanto de caráter documental, ficcional ou animação, proporcionando uma visão crítica, dinâmica, interessante e provocadora sobre os conflitos do desenvolvimento da história, em especial a do Brasil, contribuindo para o desenvolvimento social, educacional, artístico, cultural e do entretenimento’.

E como você foi pego pela notícia do coronavírus?
Leio diariamente dois jornais: um de São Paulo e outro do Rio de Janeiro e três vezes por semana o ‘O Imparcial digital’ para saber notícias da minha Presidente Prudente. Quando os primeiros casos de Covid-19 surgiram na China e, em seguida, alastrou-se pelo mundo, uma preocupação me bateu: E se chegar aqui, como por exemplo, a ‘gripe espanhola’, em 1918? Mas entre a preocupação e as atividades de trabalho, caminhamos. A ficha só caiu mesmo, quando fechei com a TV Globo uma participação na segunda temporada da série ‘Aruanas’ e, no primeiro dia de gravação, a emissora suspendeu todos os produtos da casa em produção. As atividades da produtora também pararam. Com os parceiros assistentes fizemos acordos e paramos todas as atividades. Então, o que fazer?

E quando surgiu a ideia de explorar as neuras da pandemia em um filme?
A inércia é uma tortura muito grande. A reclusão por algum motivo já é complicado. Obrigatório ainda, mexe com a alma. Então, entre brincadeiras e conversas com meu filho Pedro Paulo Vicentini, que também é artista e também aqui condenado à reclusão, começamos a pensar em coisas para fazer. E pensando no que, a criatividade estocada e reclusa, começou a pedir socorro. Comecei a organizar as ideias no papel. Busquei uma peça curta do dramaturgo Russo Anton Chekhov, que tenho como referência de texto nos cursos e oficinas de criação teatral e, com ela, tracei um fio condutor para desenvolver o roteiro. Busquei referências de outras pandemias mundiais, em especial a gripe espanhola no Brasil [1918], durante a Primeira Guerra Mundial. Estima-se que só no Brasil, a gripe vitimou cerca de 35 mil pessoas. Comecei a escrever. Nesta madrugada [domingo], terminei o tratamento zero do roteiro, com 80 páginas, prevendo um filme de 80 minutos. Agora é organizar a produção...

Mas, até chegar ao filme você estava com outras criações, certo?
Sim. Com um canal do YouTube comecei a “brincar” de dar aulas para os milhares de seguidores que tenho nas redes sociais: Instagram, Facebook, Twitter. Daí apareceram alguns editais para este período e comecei a criar. Fui convidado a escrever uma comédia para o teatro que inicialmente entraria em cartaz agora em maio. Parou, mas continuei escrevendo. Estes escritos, com as devidas adequações, viraram um livro sobre o universo feminino que deverá ser lançado em breve. A mente continuou a voar. E por que não um filme?

Mesmo sem poder sair de casa, mesmo sem poder se reunir...
Assim, com todos os cuidados e recomendações, começamos e estamos praticando com muito rigor.  Respeitando a quarentena e, sobretudo, dando valor aos meus e à minha vida, que já vou além dos 60, bem vividos, e os quero viver por “LongLong Time”, e feliz, como conta o final de muitos filmes americanos.

Já está desenvolvendo o roteiro?
O tratamento zero do roteiro ficou pronto na madrugada de domingo. Agora é fazer outros tratamentos, decupagem, preparar a produção e filmar. Defini este momento e este novo produto como ‘um grito de socorro e ousadia’. Ousadia e petulância, porque sem recursos, vamos realizar um filme longa-metragem sobre esta peste e este tempo que nos faz reciclar vidas e repensar nossos atos. Humor, dramas, neuroses, aflições e angústias num filme que enviaremos para festivais de cinema e apresentaremos às diversas televisões para veiculação. Teremos legendas em inglês e espanhol.

“OUSADIA E PETULÂNCIA, PORQUE SEM RECURSOS, VAMOS REALIZAR UM FILME LONGA-METRAGEM SOBRE ESTA PESTE E ESTE TEMPO QUE NOS FAZ RECICLAR VIDAS E REPENSAR NOSSOS ATOS”

Como produzir?
Estou enviando mensagens aos amigos pedindo doações, de R$ 100, R$ 200 ou quanto for possível nos ajudar para conseguir o mínimo necessário para reunir uma equipe mínima e, seguindo todos os critérios de segurança indicado pela OMS [Organização Mundial de Saúde], começar as gravações. Mas como e onde fazer? Esta foi mais uma de minhas indagações. E uma luz deu o start quando fui buscar um documento na garagem e percebi uma luz do sol, magnífica, refletindo nos objetos ali guardados. Então defini que este filme será realizado neste local de casa, aproveitando objetos de outros filmes e espetáculos, como bonecos, figurinos, máscaras. Podemos dizer que será um manicômio litero-dramático estilizado e bem humorado.

Quem serão os atores?
O único intérprete humano serei eu, que como protagonista, viajará nas divagações da personagem que sufocada pelo enclausuramento pela pandemia, monta uma clínica com um grupo de bonecos e com estes começa a se relacionar, num clima passional e emocional que transcende a normalidade e avança patologias outras. O filme terá uma linguagem popular e cômica. O protagonista contracenará com 20 bonecos que, a partir de determinado momento do filme, ganham vida e começam a se relacionar com o protagonista.

Como pretende colocar este filme em circulação?
Estou realizando um filme longa-metragem sobre estes tempos de pandemia, popular e cômico. Teremos espaço em festivais e veiculação em televisão. Penso que será um filme cult, com cara de e para festivais, que não realizo há tempos.

É possível fazer arte em casa?
Eu passo em média quatro horas por dia em frente ao computador escrevendo, tendo ou não projetos. Se não tenho, fico inventando, criando, buscando, pesquisando, lendo, rabiscando...

Qual a importância de, enquanto artista, não abandonar o processo criativo durante a quarentena?
O artista não pode abandonar o processo criativo nunca. Passei recentemente por uma crise muito profunda de depressão e em consultas com o médico psiquiatra ele sempre dizia: ‘Estou admirado de você estar neste estado clínico e conseguir escrever e representar’. Eu não paro. Sou eu quem dito ordens para a enfermidade e não a enfermidade que me dita ordens.

 

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