Falta empatia

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 03/03/2019
Horário 06:30

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar.” (Martin Niemöller (1933), símbolo da resistência aos nazistas).

Escasseiam os bons exemplos. Figuras e instituições importantes fracassam por todo lado. Lamentável que passemos por inúmeras situações sem aprender delas o principal. A Sagrada Escritura aponta a realidade do final dos tempos e, antes, os sinais indicadores do fim. Desaprendemos a leitura desses sinais. Até previsão meteorológica erra e atrapalha um pouco a vida de quem norteia-se por ela.

Faz pouco, no Brasil, estávamos debatendo a polarização. Desde de pelo menos as manifestações de 2013, uma espécie de recrudescimento tomou conta dos ânimos nacionais. Neste espaço já abordei o assunto algumas vezes. Depois da polarização, a burrice. O debate de ideias acontece (?) emburrecido. Interlocutores são desancados, as premissas do outro são eliminadas pela simples vontade de negar-lhe a possibilidade de estar certo. Mais ou menos o ‘quem não está comigo, está contra mim’.

Infelizmente, a truculência, não só, verbal se alastra. Na internet, robôs e truculentos disseminam ‘ideias’ e destilam ‘ódios’. Muita gente se cansa e acaba saindo das redes sociais e evitando pessoas no trabalho, nas rodas sociais e até mesmo nas comunidades religiosas. Falar com quem só aceita a sua versão (desatualizada) e com quem não consegue enxergar nada além do que quer e precisa, não é salutar. Verdadeiro processo de desumanização.

Faz algum tempo que, observando pessoas, sociedade e seus movimentos, eu ansiava pela saída da presidente Dilma Rousseff, eu queria a condenação e a prisão do ex-presidente Lula (cada vez mais ‘esquecido’ no cárcere), eu me deixava envolver pela voz do povo querendo mudança. Mas via os sinais (‘fortes sinais’) do seu contrário. As pessoas –em massa ou manada– queriam pirotecnia (fogo, guerra, violência). Os ‘pacifistas’ viraram ‘isentões’. Na atual metafísica quem não está a favor da narrativa dos poderosos de plantão trabalha contra o país. Autoritários!

As cores e a chave ideológica mudaram, mas não o extremismo quase fanático que subtrai a razão, restando apenas a emoção. O ponto desencadeador desse texto é a morte de Arthur Araújo Lula da Silva, aos 7 anos de idade, em Santo André. O menino, ceifado por uma meningite, é neto do Lula. Pronto. Os críticos do ex-presidente –que, diga-se, chegou a fazer política sobre o caixão da esposa– deitaram falação sobre a sua ida ao velório –um ato de misericórdia–. Já que a Palavra de “Deus acima de todos” diz: “a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6,45), abriram a boca e expuseram o horror.

O deputado federal Eduardo Bolsonaro escreveu: “Lula é preso comum e deveria estar num presídio comum. Quando o parente de outro preso morrer ele também será escoltado pela PF para o enterro? Absurdo até se cogitar isso, só deixa o larápio em voga posando de coitado.” A blogueira Alessandra Strutzel publicou com figurinhas (coração e sorrindo): “Pelo menos uma noticia boa” (não transcrevo seus palavrões). Opiniões horrorosas! Não acredito que ditos-cristãos sejam incapazes de atuar um mísero silêncio em solidariedade diante da dor alheia. “Uma palavra amena multiplica os amigos e acalma os inimigos” (Eclo 6,5). Falta empatia. Sobra brutalidade. Que tal tratar o outro como deseja ser tratado?

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Pax!!!

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