Ignorância e desprezo

OPINIÃO - Sandro Rogério dos Santos

Data 10/05/2020
Horário 05:02

Gastamos palavras boas e fortes com ideias e fatos fracos e fortuitos. Lembro-me de uma 'aula espetáculo' de Ariano Suassuna (acessível na internet) na qual observou que se um crítico musical gasta a palavra "genial" para adjetivar a arte de Chimbinha (sabe quem é?) ao tocar guitarra, o que se dirá de Beethoven? Teria que inventar outra palavra, pois, usar ‘genial’ para ambos é insuportável.

Dia desses li nalguma página de jornal ou revista que o atual presidente brasileiro é um estadista. Perdi imediatamente o gosto pela leitura do texto e o encanto pelo seu autor. Mas fui até o final. Santo deus! Tudo o que não me parece haver neste país é um estadista em postura de comando. Limito-me a observar sem mais palavra dizer.

Quanto descuido com as palavras. Sei que também cometo impropérios e desvarios, sem contar os atropelos e atos falhos na hora de emiti-las. Quando escritas ainda há a possibilidade da revisão, mas quando ditas é como a pena que o vento leva por onde sopra e vai longe... não se recupera mais.

Lamento não ter amplo repertório para ocupar a audiência com assuntos outros enquanto todos vão para o mesmo. Lamento não viver tão alienado ao ponto de ficar repetindo chavões positivos para tapear os ouvintes (leitores). Tanta gente compara o presente com o passado para inferir sobre o futuro. Entre o passado e o futuro há o presente a ser vivido. E sinceramente não acho que devamos ficar o tempo todo imaginando ‘cientificamente’ como será o futuro se não somos capazes de olhar, contemplar e acolher o presente com toda a sua sorte de alegrias e tristezas. Não houve adivinho ou profeta que nos alertasse contra o novo coronavírus.

Como será o futuro? Muitos se perguntam. Antes de lá, devemos nos perguntar como está sendo o presente? O que fazemos nele? Como nos posicionamos diante de tudo que há? Ouvi nesta semana que ‘cpf evoluiu ao óbito’ (custa dizer que uma pessoa morreu???) e que ‘cnpj morrerá’. Essa normalização (banalização) da desgraça esfria, empedernece e empobrece a nós como seres humanos. Bem disse Eduardo Leite (governador do RS) ao ser perguntado sobre a quarentena: “lamento sua ignorância e desprezo pela vida”.

Quantos de nós fazem vista grossa às mazelas por uma simples incapacidade de suportar a existência! Vivem numa espécie de “vida é bela” quando deveriam cuidar para que ela de fato ficasse bela para os de agora e para os que talvez venham depois de nós. Um pouco mais de silêncio reverente nos faria bem. Um pouco menos de certezas absolutas e um pouco mais de luz sobre o mistério da vida, nos tornaria simplesmente humanos.

Seja bom o seu dia e abençoada a sua vida. Um abraço distanciado a todas a mães. Pax!!!

 

 

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