Sobre o que nos sufoca

OPINIÃO - Roberto Mancuzo

Data 02/06/2020
Horário 06:17

É péssimo o que vou dizer, mas chegamos a uma situação autoritária, despótica. Uma barreira, uma mordaça quase intransponível, que se coloca entre nós e o mundo. Sensação de perda de ar sem ao menos estar doente. Querer falar e não conseguir. Falar e sentir que a voz não foi de fato para frente, não chegou ao interlocutor. Não foi agradável, correta, assertiva. E ainda assim, depois de tentar dizer o que queremos, recebemos de volta um sopro estranho da morte, que percorre as narinas e chega ao cérebro para realmente confundir tudo. Tristes dias estes que vivemos.

E olha que eu poderia estar falando de espaços públicos sendo iluminados por tochas fascistas, por golpistas que querem eliminar ou fechar poderes democráticos ou por joelhos tiranos que apertam o pescoço de cidadãos até a morte. Ou poderia? Até que sim, mas atrás de tudo isso está o conceito de liberdade. E é isso que pega.

No livro “Dois conceitos de Liberdade”, o pensador liberal Isaiah Berlin (1909-1997) fundamenta dois tipos de liberdade: a positiva e a negativa. Simples assim. A positiva prevê condições para alguém ser livre e a segunda não impõe nada. Quer ser livre? Vai ser. Na positiva, alguém diz a você como ser livre e na segunda, você escolhe. Na primeira, o governo, a moral, os poderes todos impõem limites. Na segunda, saímos sem nem querer saber o que pode acontecer. Qual é a melhor? Difícil porque é algo contraditório.

Temos acostumado a viver com a opção de alguém nos colocar barreiras. Parece mais seguro. Mas é ruim porque detona na nossa mente uma sensação de que seremos julgados, presos, derrotados. E esta condição piora ainda mais porque não vem assim, digamos, de forma direta, bem desenhada. Vem insuportavelmente escondida entre enigmas que é preciso decifrar para não sofrer.

Exemplo bem fácil na nossa casa. Quando eu quero ir até uma partida de futebol com amigos e a minha esposa diz “Você quem sabe”, ferrou tudo. Essa frase “Você quem sabe” é realmente uma opção para que eu mesmo decida ou ela quer que eu pense duas vezes e fique mesmo em casa? Para nós homens, este tipo de dilema é dilacerador. E daí, ficamos em casa, porque a sensação de sobrevivência é maior. Entre agir e ficar, melhor ficar.

Às vezes é preciso recuar para avançar e até mesmo compreender que de fato a minha liberdade termina quando começa a do outro. Frase batida, mas correta. Às vezes conseguimos ir para as montanhas, outras é necessário lutar, suportar a dor do combate por um simples dever social.

Mas um dia eu vou ser livre. Um dia vou dizer claramente, em alto e bom som, que não tolero os intolerantes, que não admito nenhum tipo de cerceamento da minha liberdade, que não admito que um bando de ignorantes e fascistas, metidos a liberais, decida que meu país vai perder tudo que conquistou a trancos e barrancos.

Um dia eu vou sair à rua da maneira que quiser. Um dia eu vou falar e todos irão escutar o timbre perfeito da minha voz. Um dia, gente, eu vou me livrar desta @...##@!!** de máscara.

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