A tinta vermelha que incomoda mais que o sangue invisível

OPINIÃO - Marcelo Creste

Data 26/03/2026
Horário 04:30

No último dia 8 de março, em Presidente Prudente, algumas mulheres ousaram fazer algo perigoso: manifestar-se. Não quebraram portas, não invadiram prédios, não incendiaram patrimônio público. Fizeram algo muito mais grave — colaram cartazes, penduraram roupas e deixaram marcas de tinta vermelha nas grades do Fórum. Tinta vermelha. Aparentemente, este foi o limite.
A resposta institucional veio rápida. Registro de boletim de ocorrência. Apuração de dano ao patrimônio público. Convocação para depoimentos. Afinal, alguém precisará responder por aquelas grades manchadas. É curioso.
Porque, no mesmo país em que a tinta vermelha mobiliza o aparato estatal, o sangue real — aquele que escorre silencioso nas estatísticas de feminicídio, violência doméstica e abuso — raramente provoca a mesma urgência.
A tinta incomoda mais que o sangue. Talvez porque a tinta aparece. O sangue, muitas vezes, é escondido — dentro de casa, dentro de relações, dentro de silêncios históricos.
A manifestação tinha reivindicações simples, diretas e, convenhamos, incômodas: uma Vara especializada em violência contra a mulher e a estruturação de atendimento hospitalar para casos previstos em lei, como o aborto legal.
Nada disso é novo. Nada disso é revolucionário. Tudo isso já está, de alguma forma, previsto no ordenamento jurídico brasileiro. Mas, ainda assim, é preciso pedir. E mais do que pedir: é preciso insistir, pressionar, expor. E, ao que parece, sem sujar as grades.
Porque o verdadeiro problema não foi a ausência de políticas públicas. Não foi a omissão histórica. Não foi a dificuldade concreta enfrentada por mulheres que precisam de proteção do Estado.
O problema foi a tinta. Aparentemente, tinta lavável, diga-se. Mas simbólica demais para ser tolerada. Talvez porque aquela tinta vermelha não estivesse ali por acaso. Não era descuido. Não era vandalismo. Era linguagem. Era metáfora. Era um lembrete visual, incômodo, impossível de ignorar, de algo que a sociedade muitas vezes prefere não ver: a violência que marca corpos reais todos os dias.
Mas metáforas, quando expostas em grades públicas, parecem ser mais perturbadoras do que a realidade que representam. E então o Estado reage. Não contra a ausência de estrutura. Não contra a falta de políticas públicas eficazes. Mas contra a manifestação.
Ao longo da história, mulheres nunca receberam direitos como concessão graciosa. Cada avanço foi fruto de incômodo. De ruptura. De exposição. Do direito ao voto à proteção contra a violência doméstica, nada veio sem que alguém, em algum momento, fosse considerado “inconveniente”.
Talvez este seja o ponto. A manifestação não foi violenta. Foi inconveniente. E a sociedade, especialmente em seus setores mais conservadores, ainda lida mal com mulheres que deixam de pedir licença para existir politicamente.
Há algo profundamente revelador quando a resposta institucional se concentra mais na limpeza da tinta do que na reflexão sobre o que aquela tinta denunciava. Porque limpar a grade é simples. Difícil é enfrentar o problema. A tinta sai com água e sabão ou nova pintura. O sangue, não.

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