A vida intelectual de Claudio, o profeta

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 25/04/2026
Horário 05:00

Depois de descobrir os prazeres do ócio digno, Claudio, o Profeta, convertido a homem de letras, dedicava-se, com espantoso afinco, às mais intrincadas e complexas leituras disponíveis aos viventes. Encantado, inicialmente, com as leituras que oscilavam entre a ficção e elocubração lógica filosófica, logo Claudio descobriu a História e as Ciências Sociais. Tais leituras o tocaram tão profundamente que, com o tempo, passou a questionar-se a respeito de suas profecias, invariavelmente, de caráter social e político. 
A descoberta, por sua vez, das ciências biológicas e sobretudo, da medicina, dispersa nos mais variados volumes disponíveis na singela biblioteca municipal, produziram em Claudio profunda crise existencial. Se antes, estava convicto de seus dons proféticos, agora, já não podia ter tanta certeza. O profundo conhecimento científico, adquirido arduamente em anos de leitura, mostravam a Claudio que seus vaticínios eram claramente conectados à natural previsibilidade das ciências, mesmo, as humanas. Assim, o caráter de Claudio oscilava entre a crença nas suas próprias visões da realidade e as elocubrações advindas das leituras científicas. 
Desconfiava, de si mesmo e de suas excêntricas capacidades, ao perceber, muito claramente, que muito do que previra estava descrito nos mais diferentes livros. Sua capacidade preditiva parecia muito ancorada na observação acurada e perspicaz do que propriamente associada a dons sobrenaturais. Mas isso, obviamente, não explicava tudo. Afinal, acertara alguns resultados da loteria esportiva, e claro, acertara o resultado do fatídico jogo que o fez milionário. Como explicar semelhante predição? Procurou na biblioteca livros que contassem a história do futebol, bem como, análises de especialistas esportivos para medir, se nessa literatura seria possível encontrar respostas ao problema que se colocava. 
Não encontrou. Resultados esportivos podem ser aleatórios, muito embora o histórico de sucesso de um time possa explicar um determinado resultado. No caso específico do jogo cujo resultado foi alvo da profecia de Claudio, o time vencedor era verdadeiro azarão, nunca antes tendo vencido nenhuma partida contra aquele time. Qual a explicação possível? Simples coincidência? Se acontecimentos políticos são fáceis de serem previstos ao se estudar história ou sociologia, se o comportamento humano pode ser previsto pela psicologia e psiquiatria, se problemas físicos podem ser explicados pelos manuais de medicina, como explicar o fato de que ganhara na loteria esportiva? Seriam tais ciências vãs? 
Preocupado com questões de tamanha envergadura filosófica, Claudio recorreu à epistemologia, de modo a que foi obrigado a reconhecer que todas as ciências são humanas, mesmo as ditas exatas, sujeitas, portanto, à notórias fragilidades. Não tinha resposta e isso o afligia, demasiadamente. E a sapiência a respeito do dia de sua morte? A dúvida tornou-se, desde então a companheira de Claudio, que conviveu com ela até o fatídico dia de sua morte, profetizada. 

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