Outro dia, em uma conversa aparentemente banal entre colegas, ouvi uma frase que, à primeira vista, poderia passar despercebida: “Eu não sou que nem você, que recebe dinheiro de partido”. Não era uma constatação. Era uma tentativa de desqualificação.
O problema não está apenas na inverdade da afirmação. Há uma construção simbólica que insiste em associar determinados corpos, especialmente corpos negros, à suspeita permanente. Quando exercido por nós, o trabalho político passa a ser constantemente questionado, como se precisasse sempre ser explicado, justificado, ou, pior, deslegitimado. A questão aqui não é individual. Ela é estrutural.
Vivemos em um país onde mais de 56% da população se autodeclara preta ou parda, mas essa maioria não se reflete nos espaços de poder. Essa ausência é resultado de um sistema que historicamente regula quem pode ocupar certos lugares — e, mais ainda, como pode ocupá-los.
É nesse ponto que a experiência cotidiana encontra a análise estrutural. Como aponta Tadeu Kaçula, a presença negra nas instituições muitas vezes não significa poder real, mas sim uma “presença condicionada”, marcada por limites invisíveis que regulam a atuação e a legitimidade desses sujeitos. Não basta estar presente; é preciso lidar com mecanismos constantes de vigilância, suspeição e contenção.
A fala que ouvi naquele dia não foi apenas uma ofensa pessoal. Ela carrega uma lógica mais profunda: a ideia de que o trabalho político exercido por pessoas negras não é visto como trabalho legítimo, mas como algo suspeito, indevido ou moralmente questionável.
Curiosamente, essa mesma suspeita raramente recai sobre outros corpos. Se um partido político tem estrutura, funcionários, assessorias e funções definidas — como qualquer outra organização —, por que o vínculo de trabalho se torna um problema apenas em determinados casos? A resposta não está no fato em si, mas em quem ocupa esse lugar.
Essa diferença de percepção não é nova. No ambiente de trabalho, por exemplo, homens negros frequentemente precisam exercer um nível maior de controle sobre suas ações e comportamentos, justamente porque são mais suscetíveis a interpretações negativas. Um gesto, uma fala ou uma posição que seria considerada normal em outros contextos pode ser lida de forma distorcida quando parte de determinados corpos. O que se constrói, então, é uma espécie de “duplo padrão silencioso”.
De um lado, há a expectativa de produtividade, dedicação e entrega — muitas vezes acima da média. De outro, há a constante necessidade de provar legitimidade, de justificar presença e de enfrentar leituras enviesadas sobre o próprio trabalho. É o que podemos chamar de presença sem reconhecimento.
Estamos nos espaços, atuamos, produzimos, articulamos — mas seguimos sendo questionados. Como se a nossa atuação nunca fosse suficiente para garantir pertencimento pleno.
Romper com essa lógica não significa apenas ampliar a presença de pessoas negras nos espaços institucionais. Significa disputar o próprio sentido de legitimidade, de trabalho e de poder. Significa afirmar que nossa atuação não depende de validação externa para ser reconhecida como legítima. Porque, no fim das contas, a questão não é se estamos nesses espaços. A questão é por que, mesmo estando, ainda precisamos explicar que pertencemos a eles.
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