“Era uma vez um sonho”

Assistindo ao belíssimo filme na categoria drama, “Era uma vez um sonho” (2020), do diretor Ron Howard, entendemos a importância da função e formação da família, bem como as suas novas configurações. 
Penso que o amor - um sentimento nobre e de caráter -, como diz a teoria psicanalítica, um “self verdadeiro”, tem uma importante função que nomeio de transformadora. E aparece em uma cena hilária e sublime, entre avó e neto. A avó é a atriz Glenn Close, e tem uma performance fenomenal. Ela encarna tão bem o seu papel que acaba concorrendo ao Oscar. É uma cena que posso chamar de prazer autêntico, pois ela mostra realmente qual é o verdadeiro papel da avó e a sua função. 
A família Vance se muda para Ohio na esperança de viver longe da pobreza em um período pós-guerra. Quando o membro mais jovem do grupo cresce e se torna um estudante de Direito na Universidade de Yale, ele é obrigado a retornar para sua cidade natal e se depara com a dura realidade de sua família. Porém, ao perceber a luta de sua família contra o racismo, abusos, drogadição e pobreza, o jovem logo descobre que esse estereótipo americano é superficial e está longe de parecer um sonho. É uma história real e autobiográfica de J. D. Vance, que narra sua difícil infância em uma família pobre dos Apalaches, e sua ascensão de ex-fuzileiro naval a estudante de Direito. 
O mais surpreendente é que hoje J D. Vance é o vice-presidente dos EUA. O filme traduz um ambiente familiar disfuncional, uma mãe viciada em heroína e anfetaminas, o apoio crucial da avó e sua jornada até o sucesso acadêmico e profissional, refletindo sobre os desafios da classe trabalhadora americana. O filme tem um aspecto muito importante, inspirador e que tornou-se um símbolo da perseverança contra as adversidades, explorando as realidades sociais e culturais dos Estados Unidos. 
“Você tem que decidir por você mesmo, quem você quer ser”, seria um grito em direção a um despertar em meio a loucura experienciada por J. D. Vance. O filme mostra uma realidade dos vícios bem como se dá o seu início ou entrada com os convívios sociais. Ela provoca no meio ambiente familiar, situações tão desesperadoras e catastróficas, que o mais real de nós mesmos, precisa emergir mesmo, junto ao caos. A drogadição é o fio da navalha. A dor mental pode ser a porta aberta para a sua entrada. Em busca pelo preenchimento e sensação de bem-estar, coloca-se qualquer coisa para aliviar. Quando a dor mental não for significada, pensada e simbolizada, a busca pelo alívio imediato é inevitável. A loucura e a morte fazem parte desse cenário. Só o amor constrói. Vale a pena assisti-lo.
 

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