O enigma do Roble de Chambre: Dois prudentinos na corte do Rei Dener

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 10/04/2026
Horário 05:30

São Paulo, anos dourados. De um lado, a sofisticação absoluta da mansão de Dener Pamplona de Abreu, o homem que vestia as primeiras-damas. Do outro lado, Sérgio e J. Carrara (o Carrarinha), eterno baterista do nosso famoso e lendário conjunto musical, Os Sombras. Oh Bayard, Antony, Julio Júnior, Jair, Ernani, Pelezinho (in memoriam) me ajudem aí. Os dois amigos atravessaram a Rodovia Raposo Tavares com uma missão nobre: sobreviver à base de mesada e aproveitar qualquer boca-livre que o destino oferecesse. E que boca-livre! Estavam na toca do leão da alta costura. Noite de gala, champanhe fluindo como água da represa e os dois lá, camuflados entre artistas e socialites.

O dia seguinte: O Deserto do Saara na boca
A festa foi um sucesso, mas o despertar foi um filme de terror. Às 11h30 da manhã, o sol de São Paulo castigava as janelas da mansão. Carrarinha acordou sentindo que um camelo tinha feito o Deserto do Saara de playground dentro da sua boca. Sergio, o "Sabe-Tudo" oficial da dupla, tentava manter a pose, mesmo que seu cérebro estivesse batendo palma dentro do crânio.
Foi quando a porta se abriu com a delicadeza de um desfile de moda.
Entrou a figura: um mordomo imponente, alto, fofinho e com um astral que parecia irradiar purpurina. Ele trazia uma bandeja que era uma miragem — bolachas finas e duas jarras de suco tão grandes que pareciam o Santo Graal para quem estava com a garganta em brasas.

O duelo de etiqueta
O mordomo, com um braço estendido carregando dois tecidos luxuosos e um sotaque que misturava a Mooca com a Champs-Élysées, disparou a pergunta fatal:
— “Os cavalheiros aceitam um Roble de Chambre?”
O silêncio no quarto foi ensurdecedor. Carrarinha olhou para Sergio. O olhar dizia: "Socorro, o cara tá falando Mandarim?". Sergio, que normalmente tinha resposta para tudo — desde a escalação do Corinthians até a política internacional — apenas devolveu um olhar de desespero contido. O "Sabe-Tudo" tinha acabado de encontrar seu mestre.
Carrarinha, com os olhos fixos naquelas jarras de suco geladinho, pensou rápido (ou o que a ressaca permitia). Se o mordomo estava oferecendo algo com nome chique enquanto segurava comida e bebida, "Roble de Chambre" só podia ser o nome gourmet daquele suco divino.

A resposta de ouro
Com a elegância de quem acaba de sair de uma conferência de pecuária em Prudente, Carrarinha deu o veredito:
— "Olha... aceito sim. Mas serve só um pouquinho!"
Sergio quase engasgou com o próprio ar. O mordomo, num misto de choque e profissionalismo, estendeu o roupão de seda (o tal Robe de Chambre) que carregava no braço.
Carrarinha ficou ali, parado, esperando o "suco de roble" ser servido na caneca, enquanto recebia um pedaço de pano caríssimo. Naquele momento, a ficha caiu: ele não ia beber o Roble, ele ia vestir o Roble.
Lição do dia: Na dúvida entre a sede e a moda, o prudentino sempre prefere o suco, mas acaba desfilando de seda.
Que situação, hein? O Carrarinha me ligou e lembramos dessa inusitada passagem e pra variar rimos até cansar. Vejam vocês.

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