Nesta semana, participei de uma reunião que me provocou uma reflexão antiga: como pode o Brasil, país marcado profundamente pela presença negra em sua formação social, cultural e econômica, seguir convivendo com espaços de poder onde a população negra aparece tão pouco?
A pergunta surge sempre que observamos quem ocupa os cargos de comando, quem dirige grandes empresas, quem define os rumos da política, quem está nas mesas de decisão e quem aparece como referência pública. Em um país onde negros e pardos compõem a maioria da população, a ausência proporcional nesses espaços mostra que a democracia brasileira ainda carrega limites.
Durante muito tempo, tentou-se vender a ideia de que vivíamos em uma sociedade harmoniosa, miscigenada e sem conflitos raciais. Mas basta olhar a realidade para perceber que a cor da pele ainda influencia oportunidades, renda, acesso à educação, segurança e representação política.
Essa semana, ao ouvir reflexões sobre a história da Frente Negra Brasileira, organização fundada em 1931 e considerada uma das experiências mais importantes de mobilização negra no país, ficou evidente como a busca por participação política negra não é algo novo. Já naquele período, homens e mulheres negros se articulavam para criar escolas, jornais, espaços de formação e instrumentos de defesa coletiva. Em meio a um Brasil recém-saído da escravidão, já se compreendia que liberdade sem poder social e político seria sempre incompleta.
É importante dizer que a história da Frente Negra Brasileira, como quase toda experiência política, possui contradições e diferentes interpretações. Mas ignorar sua existência ou reduzir seu legado a simplificações é também apagar uma parte importante da história da organização negra no Brasil.
A população negra sempre precisou lutar para existir plenamente na vida pública brasileira. Mudaram os tempos, mudaram as formas de exclusão, mudaram os discursos, mas a desigualdade persiste. Hoje ela aparece na sub-representação institucional, na dificuldade de financiamento de candidaturas negras, no acesso desigual à universidade, na violência cotidiana e nas barreiras invisíveis que impedem muitos talentos de florescer.
Por isso, quando movimentos, coletivos e novas articulações surgem reivindicando participação, eles não estão criando um problema. Estão colocando um problema antigo que parte do país prefere não enxergar.
A democracia só amadurece quando amplia vozes. Quando reparte poder. Quando permite que a diversidade do povo brasileiro também esteja presente nas estruturas que decidem os rumos da nação.
Não basta celebrar a cultura negra no samba, no esporte, na música ou na culinária, enquanto se nega protagonismo político, econômico e institucional. O Brasil precisa responder a uma questão: como pode a maioria social seguir sendo minoria decisória?
Há décadas a população negra vem dizendo: representatividade não é privilégio. É justiça.