O tornar-se si mesmo e o amor como princípio de edificação 

OPINIÃO - Leonardo Delatorre Leite

Data 13/02/2026
Horário 05:30

Kierkegaard sempre foi um autor cuja obra me despertou certo fascínio e encantamento. Creio que, em seus textos, há a exortação de algo que considero fundamental para uma vida significativa e abundante. Trata-se da noção de edificação, ou, mais precisamente, de tornar-se si mesmo. Pretendo analisar brevemente aqui a relação entre o amor e o entendimento de edificação.
Recentemente, deparei-me com uma frase de Kierkegaard muito interessante. Ela dizia o seguinte: “Enganar-se acerca da natureza do amor é a mais espantosa das perdas”. Por si só, a passagem já é evocativa. No entanto, adquiriu maior profundidade e impacto em meu processo reflexivo quando finalizei a leitura do livro “Indicadores fragmentados”, do teólogo paulino N. T. Wright. Em um dos capítulos, o autor afirma: “Somos quem somos mais profundamente e nos tornamos quem mais precisamos nos tornar por meio do amor dos outros, e esse amor, por definição, nunca é simplesmente uma transação, um pagamento por serviços prestados ou prometidos: é sempre um presente”.
Segundo o pensador em questão, o amor representa, por excelência, uma condição de constituição da identidade, já que o eu não é autossuficiente. Nesse sentido, a identidade se forma também por meio da alteridade. Dito de outro modo, o eu não emerge apenas da interioridade, mas também das relações com o mundo e com o próximo. Já dizia Edith Stein: “O indivíduo humano isolado é uma abstração. Sua existência é existência no mundo, sua vida é vida em comum”.
De certo modo, o amor do outro atua como uma mediação ontológica, na medida em que serve como uma instância de revelação: ele nos revela a nós mesmos antes mesmo que tenhamos ciência de quem efetivamente somos. Certos traços de nossa identidade adquirem maior expressão e plenitude apenas porque alguém nos amou de modo genuíno, apenas porque teve a paciência de nos enxergar com atenção e de nos compreender com caridade e disposição. Isso é uma bênção! Em última análise, somos vocacionados e convocados a uma existência mais autêntica pelo amor de outras pessoas. O tornar-se si mesmo pressupõe a bênção que o amor representa, ou, mais precisamente, aquilo que o qualifica como presente.
Sob essa perspectiva, a passagem de Kierkegaard constitui um alerta. Se o amor é uma instância formativa e uma condição de constituição da identidade, o erro acerca dele é, em última análise, um erro sobre a própria vida. Trata-se de um erro eminentemente existencial, já que o amor constitui o modo pelo qual somos moldados para nos tornarmos quem precisamos e devemos ser. Confundi-lo simplesmente com um desejo passageiro, uma veleidade, uma utilidade ou uma posse significa confundir-se acerca do princípio maior pelo qual a vida se torna plenamente digna de ser vivida. Destarte, essa perda é qualificada como espantosa porque implica a perda da possibilidade de tornar-se si mesmo.
Amar não é uma alternativa, como bem dizia Agostinho. “Não há ninguém que não ame”, afirmava o Bispo de Hipona. O amor é uma condição estrutural do ser humano e, por esse motivo, não há neutralidade afetiva. A questão é o que e como amamos. Se quisermos viver de modo edificante, é preciso saber onde depositar nosso amor. Se o amor é inato, o amar bem não o é. Não amaremos bem “se antes não formos amados. Escutai o apóstolo João: Nós amamos porque Ele nos amou primeiro” (Santo Agostinho, Sermão 34, 1).
 

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