“Os olhos da comunidade são nossos olhos em todos os lugares”

Rafael Guerreiro Galvão - delegado de Polícia Civil

REGIÃO - ROBERTO KAWASAKI

Data 06/02/2020
Horário 09:47
Gabriel Buosi - Delegado Rafael: "Gostaríamos de ter equipes maiores para maximizar nossos resultados"
Gabriel Buosi - Delegado Rafael: "Gostaríamos de ter equipes maiores para maximizar nossos resultados"

Rafael Guerreiro Galvão. Provavelmente, você encontrou esse nome em diversas reportagens policiais publicadas por este diário no decorrer do ano passado. À frente de grandes operações, como a Circulum (2018), em que coordenou mais de 100 policiais no combate ao tráfico de drogas da região de Presidente Prudente, o delegado de Polícia Civil também se destaca pela celeridade nas investigações, buscas e prisões de criminosos em ações ocorridas em Pirapozinho. Município que, nos últimos meses, foi palco de crimes hediondos, como latrocínio e homicídio qualificado. Em todos os casos, os autores foram identificados e presos devido ao avanço das investigações que contou com apoio da comunidade.

O Imparcial: Como analisa a questão da segurança pública em Pirapozinho (onde atua) e na região de Presidente Prudente?

Rafael: Vivemos numa Noruega brasileira em termos de índices criminais. Nossos índices de homicídio, roubos e latrocínios são baixíssimos se comparados a grande parte do território europeu e em relação à maioria das capitais dos Estados americanos. Entretanto, crimes sempre existem. O grande diferencial de Prudente e especificamente de Pirapozinho, é que temos índices cravados de esclarecimento de crimes com morte. Nos últimos anos, foram exatos cem por cento de esclarecimentos.

Pudemos observar que o senhor e a equipe têm demonstrado agilidade para encontrar os criminosos e prendê-los.  A ajuda da população tem contribuído para a celeridade?

É importante esclarecer que não agimos, para o dever do ofício, com a emoção, mas sim com a razão. Antes um inquérito bem trabalhado e com ampla gama de provas e elementos de informação, do que um inquérito rapidamente finalizado, mas mal instruído. Não nos preocupamos com rápidas prisões, mas sim com condenações e ausências de nulidades a médio e longo prazo. Quero ver meu indiciado com seus direitos respeitados, mas definitivamente condenado daqui 5 ou 6 anos. Essa é nossa missão. E a ajuda da população é essencial, pois não temos olhos em todos os lugares para exercer nosso mister. Com isso, os olhos da comunidade acabam sendo nossos olhos em todos os lugares possíveis e imagináveis.    

Uma “mão na roda” para o setor de investigações são os equipamentos tecnológicos que auxiliam nas buscas por suspeitos. Quais os mais utilizados pela unidade?

Sim, certamente. Trabalhamos com laudos de análises, quebras de sigilos fiscais, bancários, uso de luminol para a descoberta de sangue humano não visível a olho nu, análise de DNA e eu, particularmente em nossa unidade, utilizo muito os drones para mapeamentos e operações. Tudo isso é mais que essencial nos atuais tempos. E temos também a iniciativa pioneira da Polícia Civil de Pirapozinho, que coordenou a instalação de câmeras em todas as entradas e saídas da cidade, e que iniciou, agora, a instalação de todas as câmeras de entrada e saída em Tarabai.

Dificuldades nas investigações sempre surgem. Quais o senhor pode elencar? Como lida com elas?

Gostaríamos de ter equipes maiores para maximizar nossos resultados, sem dúvida a sensação de impotência surge a nossa volta em alguns casos. Nossa única maneira de lidar com ela é trabalho e mais trabalho, para, dentro das limitações possíveis, compensar a falta de efetivo humano. Temos um déficit gigantesco de policiais civis. Infelizmente, a comunidade só percebe isso quando procura uma delegacia. Na minha delegacia, cada investigador cuida no ano de aproximadamente 600 boletins de ocorrência. Este número é desumano! Seiscentos crimes por policial por ano para investigar. E certamente não permite que eles cuidem como gostariam de cuidar de todos os casos, mesmo assim temos excelentes índices, o que mostra o bom trabalho de nossa polícia e compromisso com a população.

Desde o começo do ano, Pirapozinho tem sido palco de homicídios e, recentemente, latrocínio. Como a Polícia Civil atua para coibir ocorrências de crimes hediondos?

Veja bem, à Polícia Militar cabe o patrulhamento preventivo dos municípios. Função esta que a Polícia Militar Bandeirante, especificamente a de nossa região, desempenha muito bem. A Polícia Civil, por sua vez, trabalha na investigação do delito já ocorrido, o que chamamos de repressão delitiva, fato já consumado. Dados os índices de esclarecimentos regionais pela Polícia Civil, o criminoso tem muito mais certeza de punição e com isso crimes hediondos, de modo indireto, são grandemente impactados em sua não ocorrência.

De modo geral, podemos dizer que os crimes são influenciados pela questão social do criminoso. O que pode ser feito para tentar uma mudança nesse cenário?

Há a questão social sim, sem dúvidas. Gosto muito de trabalhar junto aos órgãos de Assistência Social e Comunitária dos municípios em que atuo. Creas [Centro de Referência Especializado de Assistência Social], Cras [Centro de Referência de Assistência Social], Caps [Centro de Atenção Psicossocial], Conselho Tutelar, Conselho Municipal de Criança e Adolescente, Conselho Municipal do Idoso, do Meio Ambiente. Sou entusiasta desta rede de apoio assistencial e comunitária. Uma violência doméstica que começa na delegacia e termina no Fórum, sem intervenção de órgãos de assistência social, por exemplo, é uma violência fadada a se repetir.

 

Todo trabalho traz momentos marcantes. Durante os seus três anos e meio da carreira, houve algum acontecimento que deixou lembranças?

Em fevereiro de 2017, quando num plantão na periferia da Grande São Paulo, ao ver um traficante morto, a mãe dele chegou, juntamente com o irmão de apenas 12 anos, e me pediu para que eu deixasse o adolescente se aproximar do cadáver para que assim não seguisse no mundo do crime e tivesse o mesmo desfecho de seu irmão. Depois descobri que era o terceiro filho daquela pessoa a seguir o mesmo destino. Espero que o pequeno adolescente que sonhava em ser bombeiro não tenha seguido este caminho.

PERFIL

Nome: Rafael Guerreiro Galvão

Idade: 29 anos

Formação:  Direito pela Toledo Prudente Centro Universitário, em 2013; pós-graduação na Anhanguera, em 2015

Atividade profissional: Delegado de Polícia Civil; professor universitário e professor de Criminologia na Acadepol

Naturalidade: Adamantina

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