Quando Claudio, o Profeta, ganhou na loteria

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 11/04/2026
Horário 04:30

Uma vez casado, Claudio passou a ter despesas, bem como, certos dissabores, antes imprevistos pela sua capacidade de prever o futuro, no caso, pormenores que revelavam-se impossíveis de serem previstos por suas inexplicáveis capacidades. Além disso, o trabalho que seu pai conseguira para ele era pesado, de maneira que Claudio chegava extremamente cansado, o que o impedia do usufruto dos prazeres da vida a dois, impedindo-lhe, ainda, que se dedicasse à vida sem sobressaltos que previra para seu destino. 
Já consciente de suas incríveis capacidades de predizer o futuro, começou a ponderar se isso poderia trazer algum benefício material, de maneira a poder cumprir, integralmente, seu destino, vislumbrado em suas visões que a alcunha, o profeta, lhe conferiam. Um dia, ouvindo jogos de futebol pelo rádio, deu-se a testar suas capacidades preditivas de maneira a usá-las para prever o resultado da disputa partida entre o Santos e o Palmeiras. Sem nenhuma surpresa para si mesmo, embora sua esposa tenha ficado perplexa (na realidade, ela não levava a sério, ainda, as profecias de Claudio), Claudio não apenas acertou o vencedor, como pôde acertar também o próprio placar, de 2 x 0, para o Santos. 
Pensou, então, na derradeira solução. Apostaria, assim que possível, na loteria esportiva, de modo a angariar alguns milhares de cruzados novos. Não tinha, nesse intento, a perspectiva de enriquecer, usando de suas capacidades para alcançar benefícios materiais, que poderiam, isso sim, trazer-lhe prejuízos éticos e morais. Intencionava, tão somente, satisfazer suas necessidades básicas, de ordem material, para então poder cumprir seu destino e nada fazer até o dia de sua morte, cuja data, àquela altura, já sabia de cor. 
Foi ao Bar do seu Pereira, distante duas quadras da sua casa. Fez seu jogo, apostando no pior time do campeonato, o que gerou surpresa nos presentes, que zombavam dos conhecimentos futebolísticos de Claudio. Este não se fez de rogado, dobrando a aposta em um placar inverossímil aos entendidos. Colocara na aposta parte significativa de seu singelo ordenado, mesmo reprimido pelos presentes e a revelia da esposa, que se via em desespero com as atitudes excêntricas do esposo. 
Ganhara, como previsto. Obviamente, não se surpreendeu. A notícia, contudo, correu a pequena cidade e em questão de horas já o chamavam de Claudio, o Profeta, alguns com escárnio, outros com espanto, outros, a maioria, já o viam como louco, místico, bruxo, entre outros apelidos, desagradáveis, é preciso dizer. Claudio, contudo, não se importava. Queria apenas viver a vida que profetizara para si, de maneira que os recursos foram exclusivamente empregados na sua simples subsistência, pelas próximas décadas, até o dia de sua morte, já anunciada. 
Depois do sucesso de sua jogada, conhecida de todos, nunca mais duvidaram da sapiência do dia de sua morte. Viver, para Claudio, tornara-se, desde então, um paciente e tedioso exercício de espera. 
 

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