“Um dos momentos mais emocionantes da minha vida foi ouvir: mamãe, eu amo você”

Mãe relata os desafios do diagnóstico de apraxia de fala na infância, um transtorno que dificulta a comunicação infantil

PRUDENTE - Cassia Motta

Data 23/05/2026
Horário 07:25
Foto: Cedida
Felipe Peretti Bertaco com a fonoaudióloga Michelle Peruchi
Felipe Peretti Bertaco com a fonoaudióloga Michelle Peruchi

O mês de maio é marcado por muitas datas especiais, incluindo o dia 14 - Dia da Conscientização da Apraxia de Fala na Infância (AFI), um transtorno neurológico da fala que afeta a capacidade do cérebro de planejar e organizar os movimentos necessários para produzir os sons da fala.

Lívia Peretti, de Presidente Prudente, é mãe de Felipe Peretti Bertaco, de 7 anos, que foi diagnosticado com esse transtorno e, a partir daí, ela deseja ajudar outras pessoas sobre essa condição ainda pouco conhecida, mas que impacta profundamente a comunicação e o desenvolvimento de muitas crianças.

A mãe conta que Felipe tem uma rotina diferente da maioria das crianças da sua idade. Enquanto muitos colegas passam as tardes no parquinho, ele divide seu tempo entre a escola, as brincadeiras e as terapias. Não por opção, mas por necessidade. 

O caminho até o diagnóstico

Desde bebê, a mãe de Felipe percebeu que algo era diferente. Enquanto outras crianças balbuciavam e começavam a pronunciar as primeiras palavras, Felipe apresentava pouca variedade de sons, hipotonia facial e dificuldade para se expressar. “Como mãe, a gente sente quando algo não está acontecendo como esperado. O Felipe entendia tudo, demonstrava inteligência e vontade de se comunicar, mas as palavras simplesmente não saíam”.

A busca por respostas envolveu diversas consultas e muitas avaliações até que especialistas identificaram a apraxia de fala na infância.

O que é a apraxia de fala na infância?

Segundo a fonoaudióloga Michella Peruchi, a apraxia de fala na infância é um transtorno neurológico motor da fala. “A criança sabe exatamente o que quer dizer, mas o cérebro tem dificuldade para planejar e programar a sequência de movimentos da mandíbula, dos lábios, da língua e de outros articuladores necessários para produzir os sons da fala”, explica.

Em outras palavras, de acordo com Michella, o problema não está na inteligência ou na compreensão, mas na coordenação motora da fala.

Ela ressalta que a criança com apraxia pode ter grande dificuldade para formar palavras, mesmo entendendo tudo o que acontece ao seu redor. “Isso pode gerar frustração, dificuldades de interação social e desafios na escola, já que a fala é uma ferramenta essencial para se comunicar e participar das atividades do dia a dia”.

Sinais e sintomas mais comuns

A fonoaudióloga alerta para os principais sinais:

- Pouco balbucio na fase de bebê;

- Atraso para falar as primeiras palavras;

- Dificuldade para imitar sons e palavras;

- Fala inconsistente (a mesma palavra pode ser pronunciada de maneiras diferentes);

- Esforço visível para falar;

- Dificuldade para combinar sílabas;

- Fala pouco compreensível.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por um fonoaudiólogo com experiência em transtornos motores de fala. A avaliação considera o histórico do desenvolvimento da criança, a observação da fala, a capacidade de imitação e o padrão de erros apresentados.

O tratamento é baseado em terapia fonoaudiológica intensiva e específica, com foco no planejamento motor da fala e uso de métodos que fornecem dicas visuais e táteis.

Segundo Michella, a intervenção deve ser:

- Frequente;

- Individualizada;

- Baseada em repetição e prática estruturada;

- Associada à participação ativa da família;

- Complementada, quando necessário, por recursos de comunicação alternativa.

Com o acompanhamento adequado, a criança pode evoluir significativamente.

Desafios de Felipe

Segundo Lívia, enquanto outras crianças estão brincando, Felipe está aprendendo habilidades que, para muitos, são automáticas, como responder, se comunicar, articular sons e formar palavras. “Cada palavra pronunciada é resultado de muito treino, dedicação e perseverança. Os desafios incluem a frustração de não conseguir se expressar como gostaria, a necessidade de terapias frequentes e o esforço diário para tornar sua fala cada vez mais clara”.

Mas, a mãe conta que as conquistas também são imensas. “Cada nova palavra, cada frase e cada vez que ele consegue ser compreendido representa uma vitória enorme para toda a nossa família”. Ela destaca um dos momentos que foi pura emoção.“Um dos momentos mais emocionantes da minha vida foi quando, recentemente, eu ouvi, pela primeira vez a tão sonhada frase: MAMÃE, EU AMO VOCÊ”.

A importância da inclusão

Lívia diz que Felipe se esforça todos os dias para encontrar seu lugar no mundo. E a sociedade também precisa fazer a sua parte. “Pais e mães podem ensinar aos filhos valores como empatia, respeito, gentileza e inclusão. Crianças com apraxia de fala na infância têm muito a dizer. Elas precisam de tempo, paciência e acolhimento”.

Lívia é empenhada a mostrar a importância de observar os sinais precocemente e buscar ajuda especializada. “Quanto mais cedo o diagnóstico e o início do tratamento, maiores são as chances de desenvolvimento da comunicação”.

Neste mês da Conscientização da Apraxia de Fala na Infância, Lívia reforça uma mensagem essencial: “Toda criança merece ser ouvida, compreendida e incluída. Porque, enquanto crianças como Felipe se esforçam todos os dias para se comunicar, o mundo também precisa aprender a escutá-las”.

Fotos: Cedidas


Livia Peretti e Gustavo Bertaco, com os filhos Felipe e Helena

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