A águia no couro: crônica de uma eterna marcha

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 06/03/2026
Horário 08:03

O asfalto da Avenida Washington Luís, número 501, era o nosso palco particular. Dali, bastava girar o calcanhar para alcançar a lenda: o Colégio I.E. Fernando Costa. Mas a verdadeira divisa, para mim e para o meu irmão Roy (in memoriam), não era o portão da escola; era o som.
O chão tremia antes que pudéssemos ver. A Fanfarra do I.E. Fernando Costa, campeã estadual, um símbolo de raça e glória nos anos 60, passava em ensaios. Os desfiles de 7 de Setembro e 14 de Setembro (aniversário da nossa amada aldeia) eram o máximo da vibração cívica, e a fanfarra era a alma da festa. Nesses tempos, éramos apenas dois garotos na calçada. Pendurávamos uma lata em um barbante e saíamos arrastando-a atrás da cadência, sentindo-nos membros honorários daquele cortejo mágico.
Conhecíamos cada herói, cada lenda: o Baixinho do Prato, com seus malabarismos que desafiavam a física; Grilo no Fuzileiro era a base de toda a fanfarra. Leco, o nosso ídolo, cuja precisão na caixa guerra ditava o ritmo do mundo; e Rafa, no surdo, o símbolo da força e da raça que ressoava em nosso peito.
Crescemos. A lata de barbante se tornou um peso no coração, um desejo urgente.
O dia do temido teste chegou. Tínhamos ensaiado em segredo, ouvindo cada batida, memorizando cada virada. Entramos na sala, e lá estavam eles: Rafa, o ícone silencioso do surdo, e o Maestro Caracu, um homem cujo respeito se impunha antes mesmo de sua voz.
O Maestro Caracu, sem rodeios, disparou: "O que vocês sabem tocar?" Respondemos, sem hesitação, com a certeza dos iniciados: "Caixa Guerra de 24 cordas."
O maestro sorriu, um leve assentimento que valeu mais que mil palavras. Pediu a Rafa que marcasse as marchas com o surdo. E nós tocamos. Tocamos a marcha de surdo, o repique da caixa, a pausa seca, o compasso das cornetas Fá e Si. Tocamos com a tranquilidade de quem executa o que nasceu para fazer. Passamos.
A alegria que nos invadiu não cabia naquela sala. Era a alegria da realização, do sonho que deixava de ser fantasia para se tornar couro e madeira. O Maestro Caracu nos entregou a nossa recompensa: a tão sonhada caixa guerra. Na pele, estava desenhada a Águia, nas cores vermelho e preto, o símbolo da fanfarra, da nossa nova identidade.
A marcha para a eternidade.
Naquela noite, não dormimos, o grande sonho estava realizado. Eu e meu irmão Roy (in memoriam) ficamos até de madrugada polindo, limpando, e simplesmente admirando o mágico instrumento. Não era apenas uma caixa; era um passaporte, uma medalha, a prova de que o esforço havia encontrado a lenda.
E então, veio o dia do nosso primeiro grande desfile com a fanfarra. O momento em que a história se fechou em um círculo perfeito.
Quando passamos em frente à nossa casa na Avenida Washington Luiz, 501, já não éramos os meninos da lata de barbante. Éramos membros, uniformizados, com o peso glorioso da caixa guerra. Nossa família inteira: Sergio, Teco (in memoriam), Ilenzinho, Cássia, Mariza, meus pais, Da. Mariana e seu Ilem Isaac, estavam nas janelas, aplaudindo, gritando nossos nomes e sorrindo com um orgulho que só a família conhece.
E, ao som imponente da Corneta Fá do querido amigo Paulinho "Suízi" fazendo dupla com outro monstro sagrado, Foguinho, o som que anunciava a passagem da honra, nós fomos marchando. Marchando para o asfalto que agora era nosso, marchando rumo à eternidade vestidos de felicidade.

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