A arte de ser invisível 

Giselle Tomé

CRÔNICA - Giselle Tomé

Data 22/03/2026
Horário 06:00

Como você dá conta de tudo? Estudar, trabalhar, cuidar da casa, das crianças? São perguntas que eu ouço frequentemente. A verdade é uma só: eu não dou. E está tudo bem... Pelo menos é o que meu lado maduro diz, mas no auge da exaustão caio na autossabotagem.
O que faço é me reorganizar o tempo inteiro por dias e semanas. Aqui o planejamento é a curto e médio prazos. Coloco tudo no planner da minha mesa de trabalho e, muitas vezes, apenas cumpro o script. É o certo? Não sei. Mas é o possível. Faço trocas difíceis como estudar em vez de malhar, pular o almoço para ir ao médico. E depois me esforço para entrar na rotina, digamos mais saudável. 
Confesso admiração por quem parece ou se mantém plena diante de tantos afazeres e obrigações que, quase sempre, recaem sobre nós, mulheres. E como se não bastasse, ainda há a cobrança constante, disfarçada ou não, do corpo em dia, cabelo impecável, unhas feitas e pele perfeita.
No meio da rotina, eu também gostaria de me encaixar nesse ideal de autocuidado. Mas, na prática, tenho feito escolhas para sustentar o que realmente importa no longo prazo.
E, nesse processo de equilibrar tarefas, muitas vezes invisíveis, entre a casa, a profissão e as filhas, entra algo fundamental: o autoconhecimento. Entender os próprios limites é uma forma de proteção e, mais do que isso, de respeito às nossas conquistas e projetos. É um exercício constante de lembrar quem somos, mesmo quando tudo ao redor exige que sejamos mais, façamos mais, entreguemos mais.
A pressão que recai sobre os ombros das mulheres é tamanha que, mesmo quando damos o nosso máximo, ainda assim ouvimos: “não organiza a casa direito”, “não olha os filhos”, “não cuida disso”, “não faz aquilo”. Nunca é suficiente.
E ainda assim seguimos... meio inteiras, meio cansadas... tentando sustentar alguma ideia de totalidade. Porque, em um mundo que ainda impõe tantas barreiras, a liberdade feminina, muitas vezes, passa inevitavelmente pela liberdade financeira. Por isso, ainda buscamos conciliar tudo. 
É preciso coragem para encarar o óbvio: não damos conta de tudo. Mas talvez o que importe não seja o tudo, e sim o que decidimos manter e defender. Porque, entre tantas exigências, continuar não é pouco é muito, e é o que nos mantém de pé.
 

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