A educação além dos números

OPINIÃO - Diego Ceccato

Data 29/01/2026
Horário 05:00

Como os números podem nos ajudar a compreender os processos educacionais no ensino superior? É fato que um dado numérico, sobretudo em fenômenos sociais como a educação, tem valor, pois aponta tendências, alerta para problemas e orienta decisões. Porém, o número não é a explicação em si. Imagine uma disciplina em que 60% dos estudantes ficam em recuperação final. O que esse percentual diz? Apenas isso: que 60% ficaram de recuperação. Nada além. As razões desse resultado podem ser diversas, como motivação dos estudantes, dificuldades metodológicas, desalinhamento entre ensino e avaliação, bibliografia inadequada ou problemas institucionais. Tais razões jamais serão captadas pela frieza do indicador. Só quem esteve no cotidiano daquela turma, vivendo o semestre e suas nuances, pode interpretar esse dado com responsabilidade. Esse é apenas um exemplo sobre como um único número não dá conta de captar a complexidade de uma situação real. A mesma lógica se aplica ao discutir matrículas, evasão, satisfação estudantil ou qualquer outro indicador. O número é sempre um ponto de partida, nunca a conclusão.
Apesar disso, cresce o número de aventureiros e forasteiros da educação que, munidos de dashboards coloridos, gráficos sedutores e expressões técnicas de efeito, acreditam que tudo pode ser reduzido à métrica. Confundem informação com conhecimento e se encantam com o volume de dados, enquanto empobrecem a capacidade de explicá-los. Com isso, tentam padronizar realidades que não são padronizáveis, tratando cursos, regiões, estudantes e instituições como peças idênticas de uma linha de montagem. Propagam não educação, mas enlatados educacionais.
A educação, porém, é outra coisa. Não se resume a planilhas, embora elas possam auxiliar a compreender o processo. Educação é um fenômeno profundamente humano, regido pela interação entre estudantes, professores, coordenadores e gestores. Exige sensibilidade, escuta e presença. Muitas vezes, a percepção de quem está na linha de frente identifica um problema antes que qualquer indicador seja capaz de registrá-lo. Afinal, o produto da educação não é um número, mas a formação de uma pessoa, e nenhuma instituição forma dois indivíduos iguais.
Reconhecer a necessidade de não reduzir a educação a números e compreender que cada sala de aula e cada curso possuem suas especificidades é essencial para garantir qualidade no ensino superior. A boa notícia é que ainda temos profissionais e instituições que resistem ao processo de enlatamento e seguem oferecendo um trabalho de excelência, atento, humanizado e singular para cada estudante. É essa postura que impede que os números se tornem tiranos e mantém viva a essência da educação.

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