A Água Nossa de Cada Dia

Benjamin Resende

COLUNA - Benjamin Resende

Data 27/09/2020
Horário 05:30
Caixa d´agua da Vila Marcondes
Caixa d´agua da Vila Marcondes

Os primeiros anos das Vilas Goulart e Marcondes se fizeram com muita luta e muito denodo. Obstáculos foram os mais diversos. Toda sorte de empecilhos estava presente, impondo aos pioneiros uma saga de heroísmo. Talvez, no início, desafio maior tenha sido conviver com pouca água e água ruim. Os pequenos córregos ficavam distantes, para se carregar água três vezes ao dia. O primeiro trabalho a ser executado, visando a represar a água, foi feito pela Estrada de Ferro Sorocabana. A princípio, a água vinha de Indiana, num vagão-tanque. Depois, o melhor local de represamento foi feito perto do matadouro, onde, hoje, fica o Museu.

A água foi canalizada até a Estação. A subida, ainda sem as bombas de recalque, dificultava a chegada da água. Só muito tempo depois, é que se fez a represa da água, abaixo da Vila Marcondes, onde, hoje, se

encontra o Lar das Meninas. Com esse trabalho, a Estrada de Ferro Sorocabana se viu abastecida de água para as suas locomotivas.

A população sofria com a falta da água. Os poços, as cisternas, como se dizia antigamente, exigiam uma profundidade muito grande e difícil para a sua manutenção, por ser a terra arenosa e de desmoronamento fácil. O primeiro poço se fez na grota, em frente à Estação, entre a Rua Nilo Peçanha, esquina com a Avenida Brasil. O poço se enchia de água da chuva e as mulheres iam buscá-la para as tarefas domésticas. Os poços ficavam na baixada, eram rasos, produziam água salobra e o paladar a rejeitava. Servia para tomar banho, lavagem de roupa e para os animais.

Imensa era a falta de água e assunto único da pequena comunidade. Mulas cargueiras, encilhadas, com um latão de cada lado, transitavam pelas ruas poeirentas. Quando chovia, todo mundo dava graças a Deus, pois a água caía do telhado, era armazenada e havia um pouco de fartura e menos fadiga.

Com a chegada de italianos, vindos quase todos da região da Estrada de Ferro Mojiana, Caixa d´agua da Vila Marcondes 32 não tinham eles preguiça de cavar poços mais profundos. O Vicente Furlanetto, testemunho vivo desse tempo, conta que, um dia, o italiano Vernille e o lusitano Benguella gritaram “Eureka!”. No espigão da cidade, onde fica, hoje, a rua Barão do Rio Branco, Vernille, munido de uma forquilha de madeira verde, segurando as duas pontas, foi andando pelo espigão, quando, repentinamente, a ponta da vara sofreu uma atração para baixo e se danou a tremer. O italiano tinha descoberto um veio de água.

O poço foi cavado e a água brotou límpida e pura. Água boa e potável. E os lotes do Pio Benguella foram vendidos a peso de ouro. A população começou a se encorajar e a ver futuro na Vila. O fascínio da água, como redentora da sede, como promessa de vida, como dádiva do céu, empolgou o pioneirismo. Já não se rejeitava a sorte de aqui permanecer.

As mulheres, donas-de-casa, obreiras do fogão-a-lenha, quando ainda não havia os poços, ao ouvir o apito do trem, corriam para a Estação, a fim de recolher, com suas latas de banha, a água que sobrava do vagão-pipa. O desânimo vinha, quando não conseguiam apanhar água. Para afastá-lo, voltavam para casa, batendo lata. Era um barulho ardido e pessimista. Os homens ficavam olhando para elas e sabiam que buscar água, agora e já, era a sua vez.

E água sempre foi o problema de Presidente Prudente. À medida que a Prefeitura Municipal arrecadava mais impostos, a água era suprida pela canalização de alguns córregos. Com a criação do DAE (Departamento de Água e Esgoto), a cidade viu as torneiras fornecendo um pouco mais de água. Só melhorou com a canalização da água do Ribeirão Limoeiro. E, mais tarde, com a perfuração de poços artesianos

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