A política do encantamento 

OPINIÃO - Helber Henrique Guedes

Data 16/05/2026
Horário 04:30

Recentemente, durante as discussões preparatórias para o Encontro de Cultura da Unesp, a coordenadora do Comitê de Ação Cultural Local da FCT Unesp, Virgínia Nicoluci, apresentou o livro “Políticas do Encanto”, do pesquisador Paolo Demuru, como uma das referências centrais para pensar os desafios culturais e políticos do presente. Ao analisar os populismos contemporâneos e as dinâmicas das redes digitais, Demuru argumenta que a força dessas narrativas não está apenas na capacidade de convencer racionalmente, mas, sobretudo, na produção de encantamento político. Líderes, movimentos e grupos passam a disputar identificação, criar comunidades emocionais e transformar medos, frustrações e desejos em experiências compartilhadas. O que mobiliza multidões, muitas vezes, não é apenas a defesa de uma ideia específica, mas a sensação de fazer parte de uma história maior.
É justamente sobre isso que o pesquisador Paolo Demuru reflete em "Políticas do Encanto". Ao analisar fenômenos contemporâneos, Demuru argumenta que teorias conspiratórias, lideranças populistas e narrativas digitais não operam apenas pela lógica da informação ou da desinformação, mas principalmente pela produção de encantamento político: um campo simbólico onde medo, esperança, fantasia e pertencimento se misturam.
O crescimento recente de produções audiovisuais associadas a lideranças políticas ajuda a compreender essa dimensão da política contemporânea. A disputa política atual passa também pela construção de heróis, mitologias e memórias coletivas capazes de produzir identificação emocional e senso de pertencimento. Não se trata apenas de comunicação. Trata-se também de organizar afetos e disputar simbolicamente a percepção da realidade. 
Não é por acaso que disputas eleitorais contemporâneas ultrapassam cada vez mais os limites da propaganda. Hoje, a política também se organiza através de documentários, cortes de vídeo, transmissões ao vivo, memes, influenciadores e produções audiovisuais capazes de transformar lideranças em personagens centrais de uma grande narrativa coletiva.
Nesse processo, a imagem pública deixa de ser apenas representação e passa a funcionar como experiência emocional compartilhada. O líder político não aparece somente como gestor ou candidato, mas como símbolo moral, herói perseguido, defensor de uma comunidade ameaçada ou personagem de uma batalha constante entre “o povo” e seus inimigos.
É justamente aí que o conceito de “encantamento político”, trabalhado por Paolo Demuru, ganha expressão no cotidiano. O que mobiliza parcelas da sociedade não é apenas concordar racionalmente com determinadas ideias, mas sentir-se emocionalmente inserido em uma narrativa maior, carregada de pertencimento, identidade e missão coletiva.
Os populismos contemporâneos não operam apenas pela lógica racional da informação ou da desinformação. Sua força está também na capacidade de produzir fascínio, pertencimento e comunidade emocional. É por isso que teorias conspiratórias frequentemente sobrevivem mesmo diante de fatos, investigações ou evidências que as contradizem. Seu funcionamento não depende apenas da coerência lógica, mas da criação de um universo simbólico capaz de organizar medos, frustrações, desejos e identidades coletivas. O indivíduo não participa apenas de uma opinião política; ele passa a sentir que integra uma comunidade que compartilha códigos, valores e uma suposta missão histórica.
O mesmo pode ser observado em diferentes contextos políticos, nos quais teorias conspiratórias, discursos sobre ameaças permanentes e narrativas de crise passam a organizar formas coletivas de pertencimento e identificação emocional. Mais do que simples opiniões políticas, essas narrativas oferecem a sensação de participação em uma grande disputa histórica e moral. 
As redes sociais intensificam esse processo. Algoritmos, vídeos curtos, transmissões ao vivo, grupos fechados e influenciadores digitais ajudam a consolidar uma estética permanente da guerra cultural, em que política, entretenimento e emoção passam a se misturar de maneira contínua. 
Talvez por isso combater apenas a “fake news” seja insuficiente para compreender o fenômeno. O que mobiliza multidões não é somente a mentira em si, mas a experiência emocional que ela produz. Há um desejo coletivo de sentido, reconhecimento e participação que não pode ser ignorado. O encantamento político nasce justamente da capacidade de transformar ressentimentos individuais em narrativas compartilhadas, oferecendo às pessoas não apenas respostas, mas também identidade, comunidade e propósito.
Se os populismos digitais conseguem mobilizar afetos, pertencimento e sensação de comunidade, a democracia também precisa ser capaz de produzir esperança, imaginação coletiva e sentido de futuro. Isso ajuda a compreender por que discursos autoritários conseguem, muitas vezes, mobilizar mais entusiasmo do que projetos democráticos excessivamente presos à tecnocracia, à burocracia ou à linguagem puramente institucional. As pessoas não buscam apenas respostas objetivas para seus problemas. Buscam também reconhecimento, identidade, emoção e perspectivas de futuro.
O grande desafio político do nosso tempo seja justamente reconstruir formas democráticas de encantamento coletivo — capazes de produzir solidariedade em vez de ódio, participação em vez de fanatismo, esperança em vez de ressentimento permanente.

Referência sugeridas 
DEMURU, Paolo. Políticas do Encanto. São Paulo: Elefante, 2025.
 

Publicidade

Veja também