A roda que todo mundo ajuda a girar

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 30/06/2026
Horário 05:30

Casimiro Miguel cometeu um pecado imperdoável no mundo do espetáculo midiático: foi sincero.

Quando ele disse que o mundo das apostas das bets "é o que faz a roda girar", não estava sendo cruel, mas apenas honesto e cá entre nós, expôs em voz alta o que todo mundo já sabia.

Porque a CazéTV não é a única. Não é a primeira. Não será a última.

Olhe ao redor. A Globo, com seus patrocínios milionários das bets, transmite os jogos e, nos intervalos, convida todos a apostar. O SBT, a Band, a Record, em um grau maior ou menor, fazem o mesmo. Os influenciadores digitais, aqueles que milhões seguem, que milhões admiram e consideram quase um amigo, também. Alguns jornalistas, os jogadores, os técnicos e toda trupe, agradecem às mesmas marcas que “fazem a roda girar”.

É uma coreografia ensaiada. Cada um com seu papel, cada um com sua desculpa, cada um com sua história bem contada para justificar a participação neste balaio milionário.

"Não é comigo", diz o jogador. "Só estou cumprindo contrato."

"Não é minha responsabilidade", diz o técnico. "Quem decide é a diretoria."

"Eu só divulgo", diz o influencer. "Cada um sabe o que faz com seu dinheiro."

"É o mercado", diz a emissora. "Se não formos nós, será outro."

E enquanto a roda continua girando, cada um empurra um pouco, cada um lava as mãos, cada um se convence de que seu papel é pequeno demais para fazer diferença. 

Só que enquanto Casimiro Miguel justifica que sem as bets não há CazéTV, não há transmissão da Copa completa, não há os personagens que muita gente ama,  não há aquele espetáculo maravilhoso que virou parte do nosso dia a dia, a coisa aperta para o lado mais fraco e é aí que a sinceridade de Casimiro se torna incômoda. 

A indústria das bets não funciona sem perdedores. A matemática é implacável: para cada pessoa que ganha uma aposta, centenas perdem, famílias inteiras se endividam repetindo o bordão "agora vai".

Não é justo colocar tudo no colo da CazéTV. Ela é só mais uma peça. Mas talvez seja justo dizer que, enquanto todos se esconderem atrás da hipocrisia, ele escancarou a festa. 

E que festa! Bonita. Empolgante. Lucrativa.

E devastadora.

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