A rotina de Cleide Maria

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 09/05/2026
Horário 04:30

Cleide Maria (*nome fictício), mulher preta, de 47 anos, casada, dois filhos, um de 23, outro de 12, com leve sobrepeso, moradora da periferia, é operadora de caixa de uma grande rede supermercadista. Seu salário é de R$ 1.621,00 por mês, ou, R$ 54,04 por dia, ou, R$ 7,37 por hora trabalhada. Além disso, recebe vale transporte. Não recebe vale refeição, nem vale alimentação, muito menos (para meu espanto) cesta básica. 
A semana de trabalho de Cleide Maria inicia-se nos domingos e termina aos sábados, sua folga, a única da semana, geralmente ocorre nas terças ou nas quartas feiras, a depender da escala de trabalho e da vontade de seu supervisor. O trabalho na escala 6x1 e aos finais de semana, sobretudo, tem sigo a regra desde que conquistou essa vaga de emprego, há sete anos. 
O dia de Cleide começa cedo, bem cedo. Como ela entra no trabalho às 8h da manhã, ela se levanta, invariavelmente, às 5h da manhã, nos dias da semana, permitindo-se, aos finais de semana, acordar às 6h diante da diminuição dos afazeres domésticos nesses dias. Cleide Maria se levanta cedo por suas razões práticas. 
Primeiro que ela precisa organizar a marmita, composta, quase sempre de arroz, feijão, frango, linguiça ou salsicha, nas duas primeiras semanas do mês, nas duas últimas, vira-se como pode, quase, só com arroz e feijão, às vezes, com alguns legumes das sobras do mercado. Além disso, Cleide prepara as coisas da escola do menino mais novo. O mais velho e o pai, comem na empresa. O pequeno, que vai sozinho para a escola, se vira com a merenda escolar. 
Geralmente, esses cuidados, o banho e os preparativos para sair, consomem uma hora do dia de Cleide. Às 6h10 ela encontra-se no ponto, à espera do ônibus que a levará ao centro da cidade. Lá, ela faz baldeação, pegando outro ônibus até a zona do sul da cidade. Geralmente, nos dias de trânsito tranquilo, ela chega 15 minutos antes das 8h da manhã, o que permite que tome café preto e pão com manteiga, no refeitório do mercado. Guarda sua marmita na geladeira de uso coletivo e segue para o caixa. 
A lida vai até às 12h, mas sempre atrasa um pouco. Cleide Maria tem menos de uma hora para almoçar, ver o celular e descansar um pouco. Às vezes, uso o tempo que lhe sobra para resolver algum problema pelo celular, ligar para a mãe, falar com o filho mais velho. Quando consegue, cochila 10 a 15 minutos antes de voltar ao caixa, pontualmente às 13h. O trabalho segue até às 17h. Geralmente, chega em casa pouco antes das 19h, e em dias de chuva, 19h30. 
Busca o pequeno na vizinha, duas casas abaixo e chega em casa. Nesse momento, outra jornada se inicia. Cleide Maria precisa cuidar da casa, colocar roupas na máquina de lavar (paga em 36 prestações), dar uma limpadinha no banheiro e fazer a janta. Enquanto isso, tenta dar atenção aos filhos, cobrar ajuda do marido. Às vezes, faz a unha, cuida do cabelo, prepara o uniforme e as coisas para o dia seguinte. São 11 da noite quando finalmente pode dormir. 
No dia de folga, durante a semana, fica sozinha em casa. Às vezes, o pequeno falta na escola para ficar com a mãe. O dia é, invariavelmente, dedicado à uma faxina completa na casa. Se precisa ir à cidade resolver algum problema, a faxina fica para a semana seguinte. Não é incomum que no dia folga, durma o dia inteiro, exausta, da escala 6 x 1.

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