A vida milionária de Claudio, o profeta

OPINIÃO - Thiago Granja Belieiro

Data 18/04/2026
Horário 04:30

Depois dos últimos fatos narrados a respeito da excêntrica existência de Claudio, o Profeta, pode-se dizer que sua fama se consolidou, com incrível rapidez. Obviamente, não é nada comum que supostos profetas ganhem na loteria, fato esse que dirimiu quaisquer dúvidas acerca das capacidades preditivas do jovem profeta. Causara espanto, contudo, a constatação de todos à sua volta, que agora conheciam sua história, que Claudio tenha mantido seus hábitos cotidianos iguais aos de sempre, com exceção, é claro, de ter deixado de trabalhar, atividade para o qual nunca mais dedicou nem ao menos um segundo. 
O dinheiro da loteria esportiva, depositado na caixa econômica e jamais sacado, de forma displicente, era usado exclusivamente para a satisfação das necessidades básicas da vida simples, que Claudio e a esposa, sempre levaram. Com tanto tempo livre, que o casal aproveitava, inicialmente, na idílica vida a dois, ambos puderam ser felizes, por meses a fio. O ócio, contudo, logo passou a causar desajustes entre o casal, que não sabiam exatamente o que fazer com tanto tempo à disposição. Claudio, então, previra que aquilo poderia causar problemas, de maneira que passou a considerar uma forma de dispender seu tempo de alguma forma que não causasse atritos com sua amada. 
Passou então a dar longos passeios pela pequena cidade, aprazível, singela, mas de pouca ou nenhuma distração capaz de entreter Claudio durante o dia todo. Na condição de profeta, Claudio poderia muito bem dedicar seus dias a seus vaticínios, mas, vinha temerário com essa atividade, pois suas visões, quando considerava a realidade como um todo, não era das melhores, de modo que vinha evitando fazê-lo. Além disso, a fama de profeta não era lá tão positiva assim, e vinha temendo por sua própria segurança. Numa dessas caminhadas, Claudio passou em frente à abandonada biblioteca da cidade, de maneira que resolvera entrar. 
Sua vida mudou, desde então. Passara a ir regularmente, todos os dias, em horário comercial, ao nobre estabelecimento, encontrando nos livros uma satisfação antes desconhecida a Claudio. Sua esposa, sabendo de seu paradeiro cotidiano, julgava que era mais uma das excentricidades de Claudio, de modo que ela poderia dedicar-se a seus afazeres, sem se incomodar com o destino do marido. Na biblioteca, Claudio passou a dedicar-se com afinco às mais diferentes leituras, da filosofia à literatura, da poesia às ciências. Elas, as leituras, os tocaram profundamente e pode-se dizer o foram transformando, dia a dia. 
Antes um completo taciturno, dado à sapiente arte de falar pouco, Claudio chegava em casa tomado de grande eloquência, falando, com empolgação das leituras do dia. Procurava, como entendia e como podia transmitir à sua querida esposa seus nobres conhecimentos recém adquiridos. A amada via-se entretida com as palestras de Claudio e passou a desejar, assim como ele, dispender seu tempo à subversiva atividade que o prêmio da loteria esportiva permitia, aos dois. 
 

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