Altar e palanque não se confundem: quando a política vira religião

OPINIÃO - Marcelo Creste

Data 31/03/2026
Horário 05:00

Há algo profundamente inquietante no nosso tempo — e que poucos ainda têm coragem de nomear com clareza: a política, em muitos casos, deixou de ser apenas disputa de ideias e passou a ocupar o lugar da religião.
Líderes são tratados como salvadores. Discursos ganham tom de revelação. A adesão deixa de ser crítica e se torna quase devocional. Surge a figura do “enviado”, aquele que não pode ser questionado sem que isso pareça traição. Quando isso acontece, a política deixa de ser responsabilidade e passa a ser crença. Mas o fenômeno é ainda mais profundo.
A fé, que deveria conduzir à verdade e à conversão pessoal, passa a ser usada como identidade de combate. Não se busca mais Deus para ser melhor; busca-se Deus para confirmar que se está certo. O outro deixa de ser alguém a ser compreendido e passa a ser alguém a ser combatido.
A religião deixa de ser ponte e se torna fronteira. E a política percebe isso. Percebe que a fé mobiliza, cria pertencimento, gera coesão. E começa a utilizá-la. Apropria-se de símbolos, simplifica o mundo em “bem contra mal”, constrói narrativas, transforma complexidade em slogans.
O medo passa a ser a cola social. A frustração, o combustível. A indignação, a energia. E a fé — esvaziada de transcendência — torna-se instrumento de validação.
Nesse processo, até lideranças religiosas acabam sendo capturadas. Às vezes conscientemente, outras vezes não. Mas passam a reforçar discursos, legitimar posições, ecoar narrativas.
O altar começa a repetir o palanque. E, quando isso acontece, algo essencial se perde. Porque a fé não foi feita para servir ao poder — foi feita para limitá-lo.
A tradição religiosa sempre afirmou que nenhum governante é absoluto. Que existe um juízo acima do poder. Que a consciência não pode ser sequestrada.
Quando a fé perde essa função crítica, ela deixa de ser luz e se torna ferramenta. E ferramentas podem ser usadas. A história já percorreu esse caminho. E o resultado nunca foi bom: a religião perde credibilidade, o debate público se degrada e o poder se fortalece sem limites.
No fim, aqueles que buscaram na política uma salvação encontram apenas frustração. Porque nenhum líder humano pode ocupar o lugar que pertence a Deus.
Talvez o maior desafio do nosso tempo seja recuperar uma distinção simples — e esquecida. A política tem seu lugar. A fé tem o seu. A política organiza a vida em comum. A fé orienta o sentido da existência.
Quando a política vira religião, ela se torna intolerante. Quando a religião vira política, ela se torna manipulável.
E o homem perde as duas. Altar e palanque não se confundem. E quando se confundem, não é a fé que fortalece o poder — é o poder que esvazia a fé.
 

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