O Brasil vive um paradoxo cada vez mais visível: ao mesmo tempo em que há desemprego e dependência de auxílios, empresas de diversos setores relatam enorme dificuldade para contratar. O chamado apagão de mão de obra deixou de ser um alerta distante e passou a ser uma realidade concreta, sentida diariamente nos canteiros de obras, nas fábricas, no comércio e nos serviços essenciais. Não se trata apenas de falta de gente, mas de uma profunda mudança na relação das pessoas com o trabalho.
A leitura feita por Antônio Setin, fundador e CEO da Setin Incorporadora, ajuda a compreender esse fenômeno. Em entrevistas, como no Show Business da Jovem Pan, Setin destaca que a combinação entre uberização, pejotização e políticas assistenciais mal desenhadas tem produzido um efeito colateral perigoso: o desestímulo ao trabalho formal e ao compromisso de longo prazo.
Dirigir um aplicativo, fazer entregas ou prestar pequenos serviços, muitas vezes no conforto do ar-condicionado, passou a competir diretamente com empregos que exigem disciplina, aprendizado técnico e presença diária. O problema não está na tecnologia ou na inovação, mas no desequilíbrio criado quando essas alternativas passam a substituir, e não complementar, o trabalho estruturado.
Nos canteiros de obras, o retrato é simbólico. É comum encontrar profissionais experientes, já com cabelos brancos, sustentando a produção, enquanto seus filhos demonstram total desinteresse em seguir o mesmo caminho. Não se trata de nostalgia ou saudosismo, mas de um alerta claro: ofícios desaparecem quando deixam de ser aprendidos.
Esse apagão tem efeitos diretos sobre a produtividade e os custos das empresas. Falta gente, sobra rotatividade e cresce a informalidade. Projetos atrasam, prazos se alongam e o preço final aumenta. Em cadeia, a economia inteira sente o impacto. Menos eficiência significa menos crescimento, menos arrecadação e menos capacidade de investimento público e privado.
O enfrentamento do apagão de mão de obra exige maturidade. Auxílios sociais são necessários e legítimos, mas precisam estar vinculados à qualificação e à reinserção produtiva. As empresas, por sua vez, devem investir em formação, planos de carreira e valorização dos ofícios. E o Estado precisa parar de tratar o trabalho como problema e voltar a tratá-lo como solução. Sem isso e por falta de gente disposta e preparada para fazer o país funcionar, o Brasil corre o risco de crescer no discurso, mas parar na prática.