Aprendizado de uma vida: Empresário resgata memórias dos tempos em que foi fiel escudeiro de Tufí Athia

SINOMAR CALMONA

Hoje aos 65 anos, sócio-proprietário da Imobiliária Imovix, Carlos Roberto da Silva, relembra com carinho e gratidão o seu primeiro emprego, iniciado aos 12 anos de idade

COLUNA - Sinomar

Data 09/07/2026
Horário 06:15
Carlos Henrique da Silva: “Eram outros tempos. Naquela época tínhamos que começar trabalhar mais cedo para ajudar a família”
Carlos Henrique da Silva: “Eram outros tempos. Naquela época tínhamos que começar trabalhar mais cedo para ajudar a família”

Para muitos, a infância e o início da adolescência são marcados por brincadeiras de rua e a leveza do ambiente escolar. Para Carlos Roberto da Silva, porém, o relógio da vida profissional começou a correr muito mais cedo. Corria o final da década de 1970 quando um amigo de sua mãe, um policial militar influente na cidade, conseguiu para o "molequinho" de apenas 12 anos uma oportunidade que mudaria seu destino: o primeiro registro em carteira de sua vida, diretamente no icônico Grupo Athia.
Dos 12 aos 15 anos, Carlos não teve uma juventude comum. Enquanto dividia o tempo com as aulas no ginásio do tradicional Colégio Rocha Melo, ele exercia uma função singular. Mais do que um simples office boy da empresa, ele se tornou uma espécie de mascote e fiel escudeiro do patriarca, Seu Tufí Athia.
"Perdi minha juventude trabalhando e nunca mais parei. Mas foi uma experiência de vida que trago até hoje e que me faz valorizar minhas coisas. Tufi Athia foi um mentor que me ensinou muito", relembra Carlos, hoje um empresário consolidado de 65 anos, sócio-proprietário da Imobiliária Imovix.

NA FEIRA, NO BAR E NO MEIO DOS CAIXÕES: A ROTINA COM UMA LENDA PRUDENTINA
A rotina ao lado de “Seu Tufí” era uma verdadeira escola de vivência urbana e popularidade. Carlos acompanhava o patrão em todos os cantos de uma Presidente Prudente que ainda preservava hábitos tradicionais. Pela manhã, iam juntos fazer a feira livre, onde Seu Tufí era cumprimentado por cada morador. No início da tarde, o destino era a Rua Barão do Rio Branco, onde o chefe se encontrava com o pioneiro Humberto Salvador para o clássico charuto diário.
Antes do almoço, o itinerário incluía uma parada obrigatória no "Bar do Roque" (popularmente conhecido como o Bar da Pedra), na esquina da Praça Nove de Julho. Ali, no ponto de encontro de corretores de gado e fazendeiros, Carlos observava o patrão tomar seu conhaque com Stange antes de ir pra casa.
Mas o trabalho também exigia maturidade precoce. Como as leis trabalhistas da época eram diferentes, o jovem Carlos frequentemente passava a noite em uma cama de campanha montada nos fundos da própria funerária, que ficava estrategicamente em frente ao antigo quartel dos Bombeiros. Se a campainha tocasse na madrugada avisando um falecimento, cabia ao garoto acordar e providenciar as guias e os papéis ao lado do motorista de plantão. “Foi uma escola de vida, aprendi muito”, destacou.
Questionado se tinha medo de dormir cercado por urnas fúnebres, ele sorri com o desprendimento da juventude: "Com 12 anos, isso não dá impacto. Dormia tranquilamente no meio dos caixões". Nos momentos livres, no grande barracão dos fundos, ele ajudava a revestir de pano as urnas destinadas a indigentes e pessoas carentes amparadas pela prefeitura. E quando Oswaldinho Athia voltava de férias da faculdade de medicina em Botucatu, os dois davam um jeito de limpar o galpão para, secretamente, jogar futebol ali dentro.

LIÇÕES DE AUSTERIDADE E A HERANÇA PARA TODA A VIDA
As memórias de Carlos Roberto passeiam com carinho por toda a árvore genealógica da família Athia. A convivência com Seu Tufí deixou marcas profundas na visão de negócios que Carlos carrega na administração da Imovix. Da convivência com o antigo mentor, ele extraiu os conceitos de disciplina e controle financeiro que moldaram sua própria independência.
"Seu Tufí mantinha uma austeridade financeira muito grande. Ele sabia acumular e dar valor. Aprendi muito isso com ele. Muitos amigos meus de infância não conseguiram construir nada, e eu pautei minha vida nessa rigidez e no valor do trabalho que aprendi ali dentro", conclui o empresário, guardando no peito o orgulho de ter sido o menino de confiança de uma das maiores grifes de prestação de serviço do oeste paulista.



 

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