CazéTV x Rede Globo: o grande duelo da Copa

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 23/06/2026
Horário 06:44

Durante muito tempo, assistir à Copa do Mundo era um ritual simples. A televisão ficava ligada horas antes da bola rolar, alguém reclamava do volume, outro reclamava do narrador e a vida seguia normalmente. Ninguém escolhia a transmissão. A transmissão te escolhia.

Talvez seja por isso que a ascensão da CazéTV seja uma das histórias mais interessantes desta Copa.
Não porque ela esteja transmitindo os 104 jogos do torneio, nem porque tenha milhões de seguidores ou consiga transformar um goleiro chamado Vozinha em celebridade internacional antes da hora do jantar. O interessante é que ela parece ter entendido algo que as novas gerações já sabiam havia algum tempo: as pessoas não querem apenas assistir ao futebol. Elas querem participar da conversa.

A Rede Globo passou décadas ocupando um espaço tão dominante que parecia fazer parte da paisagem. Era como a mesa da sala ou o relógio da cozinha. Você podia gostar mais ou menos, concordar ou discordar dos narradores, mas ela simplesmente estava lá.

O problema é que um dia alguém resolveu construir a conversa em outro lugar.

A sensação que tenho da Globo, olhando para esta Copa, é a de assistir a um tio tentando parecer jovem numa festa de família. Há esforço, investimento, boa vontade e profissionais extremamente competentes. Mas existe também aquele constrangimento inevitável de quem percebe que a linguagem mudou e a pessoa não percebeu. 

Enquanto isso, a CazéTV opera exatamente no ambiente onde essa nova linguagem nasceu. Fala mais alto, faz mais piadas, mistura entretenimento com transmissão, transforma a comunidade em parte do espetáculo e produz uma sensação permanente de pertencimento. Para muita gente, não é apenas uma transmissão. É uma turma.

Isso não significa que tudo seja perfeito. Aliás, longe disso.

Em alguns momentos, a fronteira entre jornalismo, publicidade e entretenimento na CazéTV fica tão embaçada que o espectador já não sabe exatamente onde termina a informação e começa a propaganda. Há entrevistadores improváveis em situações importantes, excesso de merchandising e uma necessidade quase adolescente de reafirmar o tempo todo como a própria CazéTV é extraordinária. É como aquele sujeito que interrompe qualquer assunto para lembrar que a festa só está boa porque ele chegou.

E isso, convenhamos, também cansa.

Por isso, a pergunta mais interessante desta Copa talvez não seja quem está vencendo a disputa pela audiência.

Talvez a resposta esteja justamente no fato de ninguém conseguir respondê-la hoje. Afinal, as grandes mudanças raramente chegam anunciando que são grandes mudanças. Foi assim com o rádio. Foi assim com a televisão. É assim com a internet.

Quando estamos vivendo uma transformação, dificilmente conseguimos enxergá-la por inteiro. A perspectiva é um privilégio reservado ao tempo. Só muitos anos depois alguém olha para trás e percebe que aquilo que parecia apenas uma alternativa estava, na verdade, redesenhando hábitos, linguagens, mercados e comportamentos.

E neste sentido, diante da ascensão da CazéTV existe algo fascinante em acompanhar um momento em que ninguém sabe ao certo se está diante de uma revolução ou apenas de uma boa ideia que surfa em seu tempo. Veremos. O jogo ainda não acabou.
 

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