Era uma manhã ensolarada de domingo. O dia estava perfeito para ler, descansar e renovar as energias. Lúcio entrou na biblioteca com uma xícara de café na mão. Folheava um livro antigo quando ouviu estranhos ruídos. Parece que entrou algum bicho na casa, pensou. Levantou-se da poltrona favorita a fim de verificar a fonte do inesperado alvoroço. – Ah, um beija-flor azul esverdeado, magnífico, entrara pela janela aberta, atinou Lúcio ao alcançar o umbral da porta da cozinha.
Diante da presença humana, o pânico do passarinho se multiplicou. Suas prodigiosas asas o arremessavam violentamente contra o teto. Embora a saída daquela caverna artificial estivesse bem ali, o desafortunado pássaro repetidamente batia a cabeça contra a superfície dura da laje. Ouvia-se, também, o vibrante e frenético ruflar das asas na frequência inacreditável de 120 batimentos por segundo.
Sentimentos de compaixão inundaram o coração de Lúcio. Então, afastou-se a fim de observar o colibri através da parte envidraçada da porta agora fechada. Pensou que a sua ausência acalmaria o pássaro e ele logo encontraria a saída. No entanto, o pássaro continuava ignorando a janela escancarada e insistia em bater a cabeça no teto.
Desafortunadamente, o colibri era cativo e vítima de sua estreita visão de mundo. Ele filtrava a realidade com os seus sentidos de pássaro e não era capaz de perceber a realidade mais ampla: a janela aberta e a rota para a liberdade. A libertação aconteceu com a ajuda de um menino. Inteligentemente, o filho de Lúcio – após tomar ciência da situação – atraiu a atenção do pássaro do lado externo da janela. Finalmente, ocorreu o libertário voo do passarinho aventureiro através da janela revelada.
Lúcio observou o pássaro sumindo no azul do céu. Voltou ao livro antigo e à xicara de café abandonados na biblioteca. Estava muito pensativo para ler. Então, matutou com seus botões. – Platão, a propósito, narra a saga de prisioneiros acorrentados em uma caverna e forçados a enxergar sombras projetadas. Essas eram as únicas realidades conhecidas daqueles encarcerados. O passarinho aventureiro, por sua vez, ao invés de se voltar à luz do sol, que irradiava através da janela, não percebia nada mais do que o teto da cozinha. É como se o pássaro estivesse acorrentado em função dos limitantes filtros de seus sentidos de pássaro. O teto artificial não era toda a realidade, era como sombra ilusória. Então, estamos diante de uma versão animal do conhecido mito da caverna.
Nós, seres humanos, também utilizamos os filtros dos sentidos. O que vemos não é toda a realidade. É uma fração dela, recortada e filtrada. Além do filtro dos sentidos, ainda temos os filtros da pré-compreensão, do preconceito, das ideologias e das cosmovisões que moldam a cultura, a ciência e a religião.
Se tivéssemos acesso à realidade plena não haveria mito, filosofia, religião ou, até mesmo ciência. Note que o objetivo comum é compreender a realidade. Os mitos apontam para alguma realidade. Utilizamos telescópios e microscópios para ampliar a nossa capacidade de percepção do universo. Se a verdade absoluta fosse acessível, não haveria literatura. Não existiria o livro Moby Dick com a sugestão de que somos o alvo principal de uma grande anedota cósmica. Não faria sentido a incerteza de Bentinho em relação à fidelidade de Capitu. Você nem mesmo teria ouvido a frase “Ser ou não Ser, eis a questão.”