Creatina: funções além dos músculos

Jair Rodrigues Garcia Júnior

Vivemos na era dos suplementos nutricionais. O início foi nos anos 1940, quando médicos passaram a prescrever suplementos de vitaminas. Nos anos 1990 começou a disseminação do uso de suplementos de proteínas, aminoácidos, creatina e outros nos esportes e academias. O marketing se tornou mais agressivo e algumas pessoas passaram a acreditar que a alimentação (mesmo quando adequada) não é suficiente. O resultado é que muitas pessoas usam suplementos por conta própria, de forma incorreta, sem saber os efeitos e “sem necessidade”.

SUPLEMENTO NUTRICIONAL - SN
SN é um produto que fornece um adicional de nutrientes, além da necessidade, e que tem efeito benéfico (ergogênico – que ajuda a atingir seu objetivo e/ou aumenta seu desempenho). Ex. a necessidade de proteínas é de 90g/d, que é obtida da dieta, e há consumo de suplemento com 20g de proteínas “adicionais”. Outro uso é quando a necessidade do atleta é muito elevada e a alimentação fica impraticável pelo volume, o SN é a forma de complementar para atender a quantidade. 
 
CREATINA
É uma molécula nitrogenada derivada de três aminoácidos (metionina, arginina e glicina). Não é um aminoácido ou proteína. Ela pode ser produzida no fígado, pâncreas e rins, e obtida na dieta, especificamente nas carnes. No corpo, está concentrada principalmente nos músculos, onde recebe um fosfato e se torna uma molécula energética, a fosfocreatina. A quebra dessa molécula libera energia rapidamente e em grande quantidade para esforços de alta intensidade. Em geral, pessoas treinadas, com ou sem o consumo de SN, têm aumento da reserva de fosfocreatina e melhoram o desempenho.

OUTROS EFEITOS
Nos últimos anos passaram a ser estudados potenciais benefícios da creatina no sistema nervoso, coração e até prevenção de doenças mentais. A SN de creatina pode modular produção de neurotransmissores, neuroplasticidade e funções cognitivas como a memória, capacidade de atenção e velocidade de processamento de informações. Pode também auxiliar na prevenção e melhorar condições de ansiedade e depressão, principalmente em pessoas idosas. Mulheres na menopausa podem ter benefícios nos músculos, ossos (associação com exercícios), funções cognitivas e humor.

METABOLISMO E PROTEÇÃO
Efeitos da creatina no cérebro podem decorrer do estoque aumentado e sua função energética, manutenção da função das mitocôndrias, melhora do metabolismo da glicose, redução do estresse oxidativo (radicais livres) e da inflamação. Pode ser um benefício do estímulo do eixo músculo-cérebro com a produção de miocinas, principalmente o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), que tem efeitos de estimular a neurogênese, o desempenho cognitivo e de neuroproteção.

PROTEÇÃO DO CORAÇÃO
De modo semelhante ao cérebro, a creatina parece ter papel energético importante no coração e a suplementação aumenta seu estoque. Na insuficiência cardíaca a creatina e fosfocreatina estão diminuídas no miocárdio em razão da degradação para síntese de ATP para continuidade da contração e diminuição dos transportadores de creatina (CreaT), o que diminui sua captação do sangue. As propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias da creatina também contribuem para a saúde cardiovascular e atenuação o prejuízo das doenças cardiovasculares. As doses diárias de creatina para os efeitos protetores ou terapêuticos ainda não estão definidas, porém o papel benéfico do exercício físico está muito bem estabelecido.

A creatina no cérebro pode modular os neurotransmissores, funções cognitivas como a memória e capacidade de atenção e outras.

Referências

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