Há histórias que começam muito antes do primeiro cartão de embarque ser emitido, consolidando-se no silêncio de um quarto, entre aplicativos de celular e filmes sem legenda. Para Thainá Gomes Manea, uma jovem prudentina de 17 anos e estudante do 2º ano do ensino médio na Escola Estadual Hugo Miele, o passaporte para o futuro começou a ser desenhado ainda aos 10 anos de idade. Hoje, ela vive o ápice desse esforço na pequena e charmosa cidade de Geraldine, na Nova Zelândia, onde passará os próximos três meses desbravando uma nova cultura e aprimorando seu inglês.
SEMENTES DE UM
SONHO DE INFÂNCIA
A trajetória da estudante é marcada pelo foco e por uma maturidade precoce. Criada pela mãe com muita luta e dedicação desde os 3 anos de idade, após a separação dos pais, Thainá sempre deixou claro qual era o seu maior objetivo. Enquanto muitas crianças se divertiam de forma despretensiosa, ela repetia com convicção: “Mãe, eu vou estudar bastante inglês, eu quero fazer um intercâmbio”.
Em casa, o idioma estrangeiro tornou-se parte orgânica da rotina da casa. Thainá assistia a filmes, desenhos e passava horas praticando em aplicativos de conversação no celular assim que chegava da escola. Percebendo o afinco da filha, a mãe, num esforço hercúleo diante das limitações financeiras de uma chefe de família solo, conseguiu pagar um curso particular de inglês por um ano. O retorno da menina, contudo, foi surpreendente e revelou que ela já havia ultrapassado os limites da sala de aula tradicional: “Mãe, eu não preciso mais de curso de gramática, eu já sei o conteúdo. O que eu preciso agora é de conversação e do meu intercâmbio”.
O SOPRO DA APROVAÇÃO E
A CORRIDA BUROCRÁTICA
A grande oportunidade bateu à porta por meio do "Prontos pro Mundo", um programa revolucionário do Governo do Estado de São Paulo voltado para alunos da rede pública de ensino. Após se destacar em uma prova rigorosa realizada no 9º ano e passar por um criterioso processo de seleção ao longo do ano letivo anterior, o anúncio oficial veio como um presente inesquecível em fevereiro deste ano: Thainá havia sido aprovada para realizar o intercâmbio na Nova Zelândia com tudo pago.
Para a mãe, a notícia foi descrita como "uma bomba de felicidade e preocupação". A partir dali, iniciou-se uma verdadeira maratona burocrática para viabilizar a viagem, envolvendo a emissão de passaporte, autorizações judiciais e contato constante com o pai, que reside em outra cidade. Apesar das dificuldades de comunicação e dos prazos apertados oferecidos pela agência responsável pelo programa — o que gerou momentos de forte ansiedade para a família —, a fé e a persistência venceram a burocracia. No domingo, dia 5 de julho, Thainá finalmente decolou rumo ao hemisfério sul.
PRIMEIROS PASSOS
NA "TERRA DOS KIWIS"
Após uma longa jornada de voos e escalas, a jovem prudentina desembarcou em Geraldine, uma acolhedora cidade de pouco mais de 3 mil habitantes, localizada na Ilha Sul da Nova Zelândia. L Dois dias depois, a estudante já estava integrada e bem acomodada no lar de sua nova família neozelandesa.
Mesmo em uma comunidade pequena, o calor brasileiro se faz presente. Geraldine recebeu também outras duas intercambistas paulistas (uma delas da vizinha cidade de Taciba) e estudantes de Teodoro Sampaio que estão em regiões próximas. Juntos, os jovens têm desbravado a cidade nos momentos livres, compartilhando cafés, risadas e a ansiedade boa que antecede o início das aulas.
ORGULHO DE MÃE: A FORÇA
QUE MOVE MONTANHAS
Para a mãe de Thainá, que acompanhou cada passo dessa trajetória com os olhos brilhando de emoção, ver a filha realizar esse sonho é a colheita de uma vida inteira de dedicação. "Criei meus filhos sozinha com muita batalha e muita luta. Ver a Thainá realizar esse sonho por mérito próprio enche meu peito de gratidão a Deus e de saudade", relata Suzana, emocionada. "A escola pública muitas vezes não está preparada para entender a grandiosidade de um projeto como esse, mas o ser humano, quando tem força de vontade, chega onde quiser."
As aulas regulares de Thainá começam oficialmente na próxima semana. Serão três meses intensos de imersão total que prometem transformar não apenas sua fluência no inglês, mas toda a sua perspectiva de vida até o seu retorno, planejado para outubro. A trajetória da menina da Escola Hugo Miele deixa uma mensagem clara de que as barreiras geográficas e sociais são plenamente transponíveis diante do talento, do estudo e da determinação.

THAINÁ COM O GRUPO DE JOVENS BRASILEIROS QUE EMBARCARAM NO MESMO DIA PARA DIFERENTES DESTINOS

THAINÁ ENTRE A MÃE SUZANA E O IRMÃO, NA DESPEDIDA ANTES DA VIAGEM