O discente demonstrava sempre grande eloquência com as palavras, na maioria das ocasiões, com uma formalidade incomum aos jovens de sua idade. Talvez tenha sido um erudito em outros tempos ou tenha cultivado tamanha erudição sabe-se lá como, considerando sua origem social e existencial. Parecia, ao falar, um homem do século XIX, a bem da verdade. Sentia-se, em realidade, incompreendido para si mesmo, em busca de decifrar sua própria posição no mundo. Certamente, não compartilhava com os meninos de sua idade dos mesmos valores e dissabores.
Na academia, tal comportamento o fazia oscilar entre a reverência exagerada para com os docentes, a quem julgava possuírem saberes infinitos e certa superioridade, supostamente atestada em currículos quantitativamente pomposos, e os seus colegas de classe, a quem julgava, muitas vezes, infantis e inocentes nos seus mundinhos vazios de conhecimento. Não compreendia, isso sim, quem era e quem deveria ser. É uma busca que só poucos fazem em tão tenra idade. Esse caráter, em oscilação constante, entre a erudição passadista e a realidade cotidiana, o fazia escrever correspondências que poderiam soar anacrônicas nos dias de hoje:
___ Prezado professor, como vai? Espero que este e-mail o encontre bem! Adianto minhas desculpas por enviar esse em seu horário de almoço. Apenas encontrei um momento agora para lhe enviar, adianto novamente minhas desculpas pela demora! Envio abaixo anexo do projeto de Iniciação Científica que estamos trabalhando, agora corrigido. Fico à disposição para qualquer nova correção e comentário!
Surpreso com a desmedida reverência, assim o professor o respondeu:
___ Excelentíssimo Sr discente G. Adianto, outrossim, minhas desculpas por não poder corresponder a tamanha formalidade a mim dispensada, formalidade essa da qual não posso corroborar, haja vista, como bem sabe, minha completa falta de trato para tamanha reverência, a qual, não é própria da minha posição existencial no mundo.
O jovem recebeu a resposta com estupefação. Não esperava uma manifestação tão sincera e aberta vinda do docente, a quem não conhecia, profundamente, em sua subjetividade. Aparentemente, pela posição ocupada, acreditava que o mesmo se regozijaria com tamanha reverência. Ao compreender que não, tomou a reflexão para si, afinal, tinha dificuldades em decifrar, claramente, sua posição no mundo e no universo acadêmico. Embarcado em profundas reflexões existenciais, que o acompanhou por dias, não pôde deixar de responder, na pompa que o caracteriza:
___ Excelentíssimo e digno professor. Causa-me profundo espanto, para não dizer contrição, constatar que tamanha reverência possa ter gerado qualquer desconforto em sua humilde, porém sempre resoluta, posição existencial. Longe de mim sobrecarregar os canais da diplomacia acadêmica com formalismos que empalidecem diante de sua notória sabedoria e desprendimento. Contudo, despido de qualquer pompa e munido apenas da mais pura necessidade de cumprimento do dever, tomo a liberdade de importuná-lo mais uma vez. Segue anexo, para vossa apreciação (e provável benevolência), o referido projeto atualizado.