Era o meio da tarde na agência bancária. O relógio digital marcava 15h52, e aquele número parecia carregar uma ameaça silenciosa. Faltavam poucos minutos para o fechamento, e a fila serpenteava até perto da porta de vidro. Não era apenas uma fila: era um acúmulo de pressas.
Os rostos estavam tensos. Um senhor olhava repetidamente para o relógio de pulso, como se pudesse constranger os minutos. Uma mulher suspirava alto, teatralizando o cansaço. Um rapaz digitava no celular com gestos bruscos, como se cada toque fosse um protesto. A funcionária do caixa mantinha o mesmo tom protocolar: “Só um instante, por favor.” No entanto, seu “instante” já vinha gasto, repetido dezenas de vezes ao longo do dia.
Ali ninguém se conhecia. Ainda assim, algo comum nos atravessava: a sensação de urgência. Como se a vida estivesse sempre prestes a fechar as portas. Como se o tempo fosse uma instituição financeira prestes a encerrar o expediente. A fila, naquele instante, era um pequeno retrato do mundo acelerado que aprendemos a habitar. Estamos sempre “quase fechando”. Sempre pressionados por um sistema que mede produtividade, mas não mede cansaço. Aprendemos a disputar espaço até na espera. A cultura da eficiência não admite lentidão. E o outro, nesse contexto, transforma-se facilmente em obstáculo.
Percebi que a impaciência é contagiosa. Um suspiro mais alto autoriza outro. Um olhar duro legitima a próxima aspereza. Em poucos minutos, instala-se um clima de quase hostilidade — ninguém exatamente contra alguém, mas todos contra o atraso, contra o sistema, contra o próprio limite. Talvez contra a própria fragilidade.
Foi ali, parado entre um número de senha e outro, que pensei na falta que faz a ternura. Não a ternura grandiosa, das palavras emocionadas. Mas a mínima, quase invisível: o gesto de reconhecer que a funcionária do caixa está exausta; que o senhor impaciente talvez carregue preocupações que desconhecemos; que cada pessoa naquela fila traz um dia inteiro de pequenas batalhas. A ternura não resolve a fila. Não cria novos guichês. Não suspende o horário de fechamento. Mas muda a atmosfera. Ela interrompe a cadeia da irritação. É um freio delicado na engrenagem da agressividade cotidiana. Ela é quase uma ética do cotidiano. Daí eu lembrei do poeta: “Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me tires o teu riso.” (Neruda)