Dia das Mães

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 17/05/2020
Horário 10:09

Saí de casa para ir à Padaria Formosa do amigo Haroldo. Adoro os bolos de lá, principalmente o bolo de aipim com coco. Chegando lá, coloquei a máscara, cumprimentei a rapaziada e fui com tudo na mesa onde ficam os bolos. Não tive sorte, pois tinha acabado o bolo de aipim com coco. Saí frustrado. Quando entrei no carro, vi a empresa do amigo Moacir, que fica a poucos metros abaixo da Padaria Formosa. O Moacir distribui os sucos da marca Life. Entrei de novo com a máscara e notei que tinha bolos também. Comprei dois sucos de 1 litro e dois bolos. Um que chamamos de formigueiro e outro de chocolate com ameixa. Deixei um abraço ao amigo Moacir e fui até a casa da minha mãe.

O bolo de chocolate com ameixa é para a Santa Negra Dinah. Ela que cuida há muitos anos da minha mãe. Nos dá uma lição de amor. Nos mostra sempre uma lição de paciência de como lidar com a velhice. Chegando lá, apertei a campainha e a Dinah veio abrir o portão: Oi seu Persio. Tudo bem Dinah. Tudo. Trouxe um bolo de chocolate de ameixa para você e um suco de laranja. Muito obrigado. Dinah não é muito de fazer festa, mas agradeceu com seu coração sincero. Entra, sua mãe está dormindo. Vou acordá-la. Não precisa Dinah. Ela vai gostar de te ver.

Entrei no quarto com máscara e fiquei poucos metros da minha mãe. Dinah a acorda e fala no seu ouvido: Mariana é o Persio. Minha mãe com seus 98 anos abre seus olhos bem devagar e uma luz no seu olhar abençoado me ilumina. Tá tudo bem mãe? Ela me dá um sinal de positivo. Dou um sorriso, mas ela não vê, afinal estou de máscara. Esse vírus nos impôs a ficar longe do abraço e do afeto. Ficamos nos olhando. Minha mãe sabe o que é solidão. A velhice é assim. Abraçar um irmão ou beijar a namorada nas esquinas desse mundo virou uma mega sena ou talvez nem isso. O carinho não tem vez nessa pandemia.

Minha mãe começa a fechar seus olhos abençoados. Vai ficar com suas lembranças. Ela tem muitas e são seu tesouro. Sonhe mãe. Sonhe que a senhora está em família, esperando o papai chegar. Sonhe com os almoços de sábado onde todos os seus filhos e netos vinham lhe fazer companhia, cantar sambas, comer seu delicioso quibe cru, esfirras e charutos de folhas de uva. Minha mãe pelo avançar da sua idade não consegue comer mais comidas muito sólidas. A Dinah me mostra alguns vídeos dela comendo comidas mais leves tipo papinhas. Ela se alimenta muito bem. Meus olhos não se cansam de ver a variedade de fotos da família que ela tem em pequenos quadros pregados na parede ou colocados sobre a mesa na sala de jantar. Cada foto é um tempo que se volta em forma de um passado feliz.

Vem cá ver a cadeira nova que chegou essa semana pra sua mãe, me diz a Dinah. Rapaz, que maravilha de cadeira. Dinah isso não é uma cadeira é um poltrona de mil e uma utilidades. A gente ri. Volto para o quarto para me despedir da minha mãe. Mando um beijo à distância. Ela está dormindo. Fico olhando ela por alguns minutos pensando de como essa guerreira criou sete filhos com muito amor. Nunca reclamou. O amor de mãe é mesmo o verdadeiro amor. Ele é incondicional. 

Vou até a casa do meu irmão Ilenzinho, conhecido como a Lenda. Minha cunhada Luciana me atende e nos cumprimentamos de máscara batendo os cotovelos. Ela me mostra no celular a minha querida sobrinha Marina tocando piano. Marina é publicitária e mora em São Paulo. Eu e meu irmão que adora o Roberto Carlos começamos a cantar uma música do Rei que ele gosta muito, “O Divã”: "Essas recordações me matam/ por isso eu venho aqui...”. Não estou alegre e nem triste nesse Dia das Mães. Com todos os efeitos na economia e na saúde que essa quarentena está causando e com todos os problemas que o Brasil está passando devemos dizer nesse dia essa frase abençoada: "Bença mãe”.

 

 

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