Do cerol aos cacos de vidro, caminhamos assombrados

Estamos saturados de notícias que nos assombram continuadamente. O assombro origina-se pelas atrocidades planejadas pelas assombrações, cujas manifestações surgem de um ente sobrenatural, como um espírito que causa medo. O termo também se refere a lugares ou fenômenos que causam pavor inexplicáveis. Muitas semelhanças do que estamos vivendo atualmente. Há poucos dias, testemunhamos a notícia de uma adolescente de Alvares Machado, interior de São Paulo que, por alguns segundos- passeando de carro com os pais- colocou a cabeça para fora e uma linha de papagaio cortou o seu pescoço de forma profunda (degolou). A linha foi confeccionada com cerol, ou seja, com vidro moído. A adolescente Lorena Lourenço da Silva,12 anos, faleceu no local. O cerol é uma arma letal. Os papagaios e pipas são brinquedos de estruturas feitas de varetas e papel, que voam conforme o vento. O intuito de preparar a linha com cerol é cortar outros papagaios ou pipas que paralelamente, voam próximos. Seria mesmo, só esse o objetivo ou um disfarce de guerra, da carnificina, delinquência e maldade. Caminhamos para a banalização da crueldade. É a ausência de limite, do respeito, do amor ao próximo, da moral, da realidade e juízo. Despertar é preciso e preciso. A hipnose nos envolve e a sedução pelas tecnologias, avançam vertiginosamente, nos encapsulando cada vez mais. É a era do não precisar pensar, do vazio e da geração liquida. O impulso epistêmico, ou seja, a curiosidade está em inanição. Busca pelo conhecimento, para que? Será que nosso cérebro no futuro tornará “brain rot”, que se traduz literalmente como “cérebro de molho” ou “cérebro apodrecido?” Estamos sendo invadidos pela deterioração mental causada pelo consumo contínuo e excessivo de conteúdos digitais curtos e superficiais. Atrofia cerebral, encolhimento de neurônios é para onde caminharemos? Um grupo de alunos do 8ºano, de uma escola, em São Jose dos Campos (SP), colocou lâmina de vidro no copo de água, da professora Michele Ramos. Ela desconfiou da agitação e foi alertada por outros estudantes, antes de beber. Que horror! Eu sou do tempo, que disputávamos entre nós, alunos, quem iria buscar um copo de água para a professora. Sentíamos como reis e rainhas. Sentíamos honrados em ajudar e honrávamos os mestres. Caminhamos em direção ao desaparecimento total e pleno, dos mestres ou professores. Sempre penso que, não podemos generalizar. Há exemplos ou modelos de alunos, adolescentes, jovens que são um orgulho para os pais e para a sociedade de maneira geral. Há os que pagam pelas assombrações da contemporaneidade. É necessário avaliar e observar certas práticas, atos e fenômenos para que não se constituam conceitos ou estruturas no nosso cotidiano, principalmente quando tem o viés de cunho criminoso. Qual seria o objetivo desses alunos? Impedir o aprendizado, calando-a para sempre? Seria vingança pelo senso de justiça e de realidade que ela estaria agindo? Seria pelo exercício de autoridade natural que compete aos professores? Ódio pelo estímulo em direção ao pensar, estudar debruçado sobre os livros? Professores, por favor, não desistam! Sabemos que o páreo, não está fácil.  É a ausência do limite, do respeito, da moral, da realidade e juízo. Freud (1856-1939), pai da psicanálise, escreve sobre os Dois Princípios do Funcionamento Mental: Princípio do Prazer x Princípio da Realidade. Nessa guerra caminhamos em direção do mais fácil, onde não precisamos mais pensar e refletir. Onde não se tolera frustrações! “Nutrir” de água com cacos de vidro a professora, é uma atuação perversa e perigosa. É o começo da destruição de   uma civilização.

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