Do Sonho da Cervejaria à Oficina Mecânica

Benjamin Resende

COLUNA - Benjamin Resende

Data 11/10/2020
Horário 04:35
Destilaria e olaria da fazenda Goulart
Destilaria e olaria da fazenda Goulart

Presidente Prudente, na primeira década de sua história, viveu mais aventura do que ventura. Cada migrante trazia, na alma e na vontade, o propósito de enriquecer-se. De fazer fortuna ou, na pior das hipóteses, viver a vida muito bem. Ter o bastante, “o bastante de lhe bastar”. A década de 20, surgida da primeira grande guerra mundial, da revolução bolchevista, do começo da industrialização paulista, começava com redobrada confiança. Daí, era preciso comprar a glória com aventura. Partir para regiões mais prósperas, novas, onde as oportunidades eram iguais, os objetivos os mesmos. Todavia a aventura passa. O pioneirismo fica. Se a vida é breve, a vontade é mensuradamente longa. Viver é lutar e correr atrás do sonho. Infinitamente surgia esperança. A esperança estava na Alta Sorocabana. O trenzinho de madeira, da estação Júlio Prestes a Presidente Prudente, percorria quase um dia e uma noite. De São Paulo da Garoa, vislumbrava-se o sol das reservas econômicas do paraíso prudentino. Buscar as paragens do começo inóspito demandava heroísmo. E o herói a si basta. Empunha o ideal e empurra a sorte. Os pioneiros aqui chegados, se não se fizeram, fizeram Prudente. Um desses heróis anônimos foi João Bottosso. Prudente o recebeu com trabalho. Um dos primeiros motoristas habilitados por aqui. Tanto que se fez motorista da Prefeitura. Esta só possuía dois caminhões. Bottosso era quem os dirigia, comprados pelo prefeito coronel Goulart, vindos de São Paulo, marca Chevrolet, canadenses, modelos 1925. Entretanto, aqui fixado, seu sonho começou a desenvolvê-lo. Não visava a guiar veículos. Queria instalar uma fábrica de cerveja. Vinha de Ribeirão Preto, onde havia a melhor fabricação da “loirinha cobiçada”. Começou a montar a sua pequena fábrica. Contudo não bastava vontade. A água dessas cercanias sorocabanas não se adaptava ao teor de pureza desejado. Aliás, antes de Bottosso, a família Perozzi fizera a tentativa. Portanto, sonho arquivado. Não, porém, a vontade de persistir na terra dadivosa. Coragem era a regra. Aproveitou a hora certa. Os carros motorizados começavam a chegar e a rodar pela cidade e região. Destilaria e Olaria da Fazenda Goulart 36 Não havia oficina mecânica. O seu lazer, de Bottosso, do pouco tempo que lhe restava do trabalho diário, se detinha no conserto de motores de toda e qualquer espécie. Assim, os donos de veículos souberam de sua habilidade e levavam os carros para conserto. De repente, uma oficina mecânica, em seu quintal, no começo da Avenida Newton Prado, surgia. Foi a segunda instalada em Prudente. E João Bottosso ficou conhecido como o médico dos automóveis, das jardineiras, dos caminhões e de motores em geral. Ampliou sua oficina na Washington Luiz. Montou uma empresa de jardineiras, que fazia o transporte de Prudente a Pirapozinho. É só verificar, no primeiro número do jornal “O Imparcial”, de 1939, a propaganda dos horários de ida e volta ou vinda. Quem conviveu com o “seu” Bottosso sabia de seu carinho por automóveis. Das histórias que contava, uma era inesquecível. Manoel Eugênio comprara um Buick em São Paulo. Um Buick, para a época, luxuosíssimo. Último tipo. Vinha o veículo trazido pelos vagões da Estrada de Ferro Sorocabana. À sua chegada, um alvoroço na cidade, banda de música e gente de todos os cantos desses rincões postavam-se na estação. Aglomeravam-se, para ver o Buick tão decantado. Realmente ele se diferenciava dos demais. A novidade do carro, uma particularidade até então desconhecida, era o câmbio. Os demais possuíam pedal. O Dr. Eugênio não conseguiu tirar o carro. Suava em bicas, de terno e gravata. O povo, impaciente, queria ver o carro rodar. E nada. Foi, então, a vez do mecânico Bottosso, que, com três manobras de mãos e pés, pôs o Buick a funcionar, com os aplausos do público, acompanhado da “furiosa”. E, orgulhosos, Bottosso e Eugênio, dentro do luxuoso carango, desciam a ladeira da estação a caminho da Newton Prado.

 

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