Domingo de carnaval

Persio Isaac

CRÔNICA - Persio Isaac

Data 27/02/2022
Horário 06:08

"Eh chão quente, terra boa é Prudente". Acordei nesse ensolarado domingo de carnaval com esse bordão, que era falado nos rodeios em louvor a nossa sagrada aldeia. Salve o lendário locutor de rodeios, Zé do Prato, da querida Regente Feijó e meu querido amigo Dedé. Tomei meu café da manhã cantando a marchinha: Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô. Mas que calor ô ô ô ô ô ô, feliz da vida. 
De repente o telefone toca como um grito de socorro. Alô. Magrão desce logo pro clube que o Michel (presidente do clube) enlouqueceu. Era meu primo Célio, o Goiano. Que isso primo? Vem logo que ele quer mandar a orquestra embora. Mas é domingo de carnaval. Vem logo. Que barbaridade, treta logo agora. O Michel Buchalla, cuja família é uma das fundadoras do Tênis Clube , se tornou presidente depois de uma disputa acirrada contra a velha guarda do clube, uma disputa que se tornou uma guerra pior que a batalha de Termópilas, onde Michel incorporou o Rei Spartano Leonidas e seus fiéis amigos em soldados Spartanos.  
Desci correndo, morava a cinco quadras do clube, e fui direto para a secretaria onde outra batalha estava acontecendo. A banda do Zé Pretinho e o famoso cantor Djalma Pires estavam presentes. O Goiano tentando acalmar o Michel, que nervoso dizia: Vocês têm que tocar samba enredo do Rio de Janeiro. Começou bem o domingo de carnaval. Oh Turco, o Magrão chegou, disse o Goiano. O que está acontecendo Michel? Ah Magrão, essa banda não sabe tocar samba-enredo do Rio de Janeiro. 
O Zé Pretinho, o dono da banda, tentando argumentar que tocou samba-enredo de São Paulo, da escola de samba Unidos do Peruche e o Michel ficou mais bravo e disse ironicamente: Isso é a mesma coisa que tocar samba-enredo de alguma escola de samba de Bauru. Começo a fazer uma lista dos sambas que a galera gostava que eram históricos e super conhecidos como o samba da Portela: "O mar, ô o mar/ por onde andei mareou/ mareou/ rolou na dança das ondas/No verso do cantador. 
Mas o Zé Pretinho não conhecia quase nada. O Turco endoidou de vez  dizendo: Não dá Magrão, esse cara não sabe nada. O Goiano tentando ser jeitoso, tentando acalmar os ânimos acirrados, disse: O Waldir Pires pode cantar os sambas do Rio? Waldir Pires? Confundiu o ex-governador da Bahia e ministro da Previdência de Sarney com o cantor Djalma Pires. O cantor  ficou aborrecido pela troca de nomes. Infelizmente o seu Zé Pretinho tinha halitose, um mau hálito insuportável, que quando ele abria a boca para falar, a sala ficava vazia e o diálogo ia para o beleléu. 
Para enriquecer mais essa batalha, entra nosso eterno playboy, Cláudio Murad, e com sua descendência árabe e habilidade de um negociador de fazendas, diz: Pessoal, vamos fazer um rolão. Que rolão? Ué o Djalma Santos canta a metade de sambas do Rio e metade de São Paulo. Confundiram o nome do cantor de novo, com o jogador de futebol, lateral direito do Verdão e da seleção brasileira. Mais constrangimento. Eu senti que a guerra não ia terminar e me preparei para formar uma nova banda. 
Não deu outra, o Michel em pleno domingo de carnaval mandou a banda do Zé Pretinho embora e pagou o que estava no contrato e me incumbiu de formar uma banda com músicos de Prudente. Eram quase 13h e o domingo de carnaval não podia ser derrotado depois dessa inédita decisão do Rei Michel "Leonidas" Buchalla. Consegui reunir amigos ritmistas e o Luiz Henrique, o Turquinho, foi o cantor. Começa o baile e lá vamos nós cantando os sambas-enredos do Rio de Janeiro e o Michel feliz da vida no seu camarote de braços abertos cantando se sentindo na Marquês de Sapucaí. Ninguém queria ser a banda do Zé Pretinho né. Vejam vocês.

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