Eleição não é Copa do Mundo

Roberto Mancuzo

CRÔNICA - Roberto Mancuzo

Data 21/07/2026
Horário 05:30

Passada a Copa do Mundo, o brasileiro respira fundo e se prepara para o próximo grande evento do ano. Não haverá bola, nem gramado, nem juiz com apito, mas haverá urnas, candidatos e, acima de tudo, escolhas. Sim, meus leitores, as Eleições 2026 entraram de vez no radar de todos nós.

Durante 30 dias da Copa do Mundo fomos tomados por uma competição que reuniu seleções do mundo inteiro. E, como em toda disputa, alguém tinha que vencer e as torcidas se encarregaram do resto: puxaram para um lado, para o outro, vibraram, sofreram, comemoraram. Tudo saudável, com alguns excessos, mas no geral uma festa.

Agora, porém, sai a Copa e entram as Eleições 2026 e o pior erro que podemos cometer é considerar a festa da democracia como se fosse também uma mera competição. Eleição não é jogo. Ou melhor, não pode ser. Reduzir o ato de votar a uma simples disputa em que um ganha e outro perde é um erro profundo, e no Brasil esse problema tem nome e sobrenome: polarização.

De um lado, há uma parcela de eleitores que alimenta uma obsessão quase religiosa pelo antipetismo. Para essa parcela, o importante não é o projeto de país, nem a qualidade do candidato, nem sua honestidade ou competência. O que importa é que ele não seja do PT. E com essa lógica, qual é o risco de se eleger qualquer um, ainda que esse "qualquer um" carregue consigo um currículo de escândalos, omissões ou retrocessos? O inimigo virou mais importante que o futuro.

Do outro lado, há eleitores igualmente reféns de seus próprios dogmas, que insistem em fechar os olhos para suas mazelas internas, que envolvem autoritarismo disfarçado de progressismo e até alianças espúrias em nome da governabilidade. Tudo é relativizado em nome da permanência no poder. A crítica ao adversário é feroz; a autocrítica, quase inexistente.

E no meio desse ringue, porque é disso que se trata, de um ringue que infelizmente se criou no Brasil, está o eleitor comum, cansado, desconfiado, muitas vezes desinformado. E, o que é pior, rendido à lógica das pesquisas: vou votar em quem está na frente, porque meu voto não pode ser perdido. Como se votar fosse aposta, e não escolha.

Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, o Brasil tem mais de 156 milhões de eleitores aptos a votar. Desses, uma parcela significativa ainda decide o voto na véspera ou no dia da eleição. Isso significa que milhões de pessoas não têm convicção, não estudam propostas e não avaliam o passado dos candidatos. Votam por impulso, por influência de redes sociais, por medo do outro lado.

E é aí que mora o perigo. Uma eleição não é um jogo de futebol. No futebol, o time que perde treina mais e volta no ano seguinte. Na política, o país que escolhe mal paga a conta durante anos, décadas, às vezes até gerações. E olha que vivemos em um país em que tudo isso se mostra ano após ano para quem quiser ver e aprender.

Quando o voto não é consciente ou dado a pessoas verdadeiramente comprometidas com o bem comum, e não com slogans vazios ou bandeiras ideológicas pintadas de ocasião, quem perde não é o outro lado. Quem perde é o país. Todo eleitor que insiste em polarizar, em transformar o adversário em inimigo, em votar com o estômago ou com o ódio, está contribuindo para um ciclo vicioso que já dura décadas. A troca de poder deixa de ser um momento de renovação democrática e vira um campo de batalha onde, no fim, sobram feridos, e raramente são os políticos.

Por isso, faço aqui um apelo: não torça nas próximas eleições assim como se torce para um time na Copa do Mundo. Escolha bem, seja consciente. Ou o Brasil pode ficar mais uma vez como ficou diante da Noruega nas oitavas de final: eliminado antes da hora, sem honra, sem luta, com meia dúzia de gente lucrando muito e a maioria esmagadora dos brasileiros com a sensação estranha de ter sido traída.
 

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