Entre a Bíblia e a Raiva: quando a fé é usada e deixa de ser vivida

OPINIÃO - Marcelo Creste

Data 12/04/2026
Horário 04:03

Há algo inquietante no cenário atual, e, ao mesmo tempo, profundamente revelador.
Nunca se falou tanto em fé. Nunca se exibiu tanto a religião. Nunca se mostrou tanto a participação em missas, cultos, encontros e movimentos.
E, paradoxalmente, talvez nunca se tenha visto tanta raiva sendo legitimada em nome dela.
É um fenômeno que exige atenção.
Porque não se trata de negar a fé.
Trata-se de compreender o que está sendo feito com ela.
A religião sempre teve uma força singular: ela une.
Ela dá sentido. Ela oferece pertencimento, identidade e direção moral.
E exatamente por isso, sempre foi observada, e utilizada, pelo poder político.
A fé mobiliza. A fé organiza. A fé engaja.
E onde há engajamento, há interesse.
O que antes era instrumentalizado de forma mais sutil, hoje se tornou explícito, amplificado e, em muitos casos, brutalmente simplificado.
A fé deixou, em muitos contextos, de ser vivida para passar a ser exibida.
Ela se tornou linguagem pública, marcador de grupo, instrumento de identificação.
Publica-se a ida à Igreja. Registra-se a participação no culto. Compartilha-se a presença em eventos religiosos.
Mas há uma pergunta que não aparece nas redes, e talvez seja a única que realmente importa:
essa fé desceu do altar para o coração?
Porque há uma diferença profunda, e decisiva, entre estar na Igreja e deixar que a Igreja esteja dentro de si.
Quando a fé é instrumentalizada, ela sofre uma transformação.
Ela deixa de ser caminho interior e passa a ser ferramenta externa.
E, nesse processo, quase sempre assume uma estrutura previsível: cria-se um medo, identifica-se um inimigo, convoca-se um combate.
A complexidade da vida humana é reduzida a narrativas simples. O outro deixa de ser alguém com dignidade e passa a ser um obstáculo.
A diferença deixa de ser tolerada e passa a ser combatida.
Não se trata mais de viver a fé. Trata-se de usá-la.
E é nesse ponto que surge a imagem mais dura, e mais verdadeira, do nosso tempo:
“Numa mão a Bíblia, e na outra a raiva, o ódio e o preconceito.”
Essa síntese revela uma ruptura.
Porque a fé autêntica não convive com o ódio como instrumento.
Ela pode até reconhecer o erro, denunciar a injustiça, afirmar valores, mas não se alimenta da desumanização do outro.
Quando a fé passa a legitimar a raiva, algo essencial foi perdido.
O deslocamento é sutil, mas profundo.
A pergunta deixa de ser:
“Como devo viver?”
E passa a ser:
“Contra quem devo lutar?”
Sai a conversão pessoal. Entra a vigilância do outro.
Sai a humildade. Entra a certeza absoluta.
Sai a caridade. Entra o julgamento.
E, pouco a pouco, a fé, que deveria humanizar, passa a endurecer.
É preciso dizer com clareza: isso não é apenas um problema da política.
Há, também, uma disposição social que permite esse uso.
O desejo de pertencimento. A busca por respostas simples. A necessidade de ter um lado, um grupo, uma identidade definida.
A fé, quando reduzida a isso, deixa de ser encontro e passa a ser trincheira.
E então se chega ao ponto mais crítico.
Quando o outro deixa de ser visto como pessoa, titular de direitos, de dignidade, de liberdade, e passa a ser tratado como inimigo, alvo, ameaça.
Quando diferenças legítimas são interpretadas como desvios a serem combatidos.
Quando direitos se tornam intoleráveis apenas porque não coincidem com convicções pessoais.
Nesse momento, não há mais fé sendo vivida.
Há fé sendo usada.
Talvez seja possível, então, propor um critério simples, mas profundamente exigente:
Se a fé aumenta o amor, ela está sendo vivida.
Se aumenta o ódio, ela está sendo usada.
Não há retórica que supere esse teste.
Não há discurso que o contorne.
A fé autêntica não precisa de inimigos para existir.
Não precisa de exposição para ser válida.
Não precisa de raiva para se afirmar.
Ela se revela, antes de tudo, na forma como se olha o outro.
Porque, no fim, é ali, no encontro com o outro, que se decide tudo.
Entre a Bíblia e a raiva, o preconceito, há um abismo.
E é nele que se distingue quem vive a fé…
de quem apenas a utiliza.
 

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