Entreouvido na rua (2)

Sandro Villar

O Espadachim, um cronista a favor da onça e do amigo da onça, este no bom sentido

CRÔNICA - Sandro Villar

Data 17/05/2022
Horário 05:30

Mãe e filha caminhavam pela rua na tarde cinzenta e, nesse tom de cinza, dava a impressão de que São Pedro, a qualquer momento, abriria as torneiras do céu para molhar a terra e as cabeças de justos e injustos (nossa, que poético!). A chuva, porém, não caiu.
De volta à mãe e à filha. Elas conversavam de um jeito não muito amistoso, como seria normal entre pais e filhos. A mulher reclamava do marido, que, como é óbvio, era o pai da garota.
Dizia a mãe: "Seu pai não presta, é um mulherengo safado e ainda por cima passou do limite na bebida. Bebe demais. É uma bebeção danada e eu não aguento mais essa situação". A filha ouviu a queixa com atenção para, em seguida, comentar: "E eu com isso? Quem casou com ele foi você".
A mãe fez um muxoxo e com passos apressados, temendo o toró que poderia cair, as duas foram em frente na tarde cinzenta ou, como diz o tango, "en esta tarde gris".
Dessa historinha achei bacana o neologismo que a pobre mulher criou: bebeção. Se o seu marido, prezada leitora, enche muito a cara, diz pra ele parar com essa bebeção, sinônimo burlesco para bebedeira.
Outras duas mulheres, ambas já batendo biela, ou seja, de provecta idade, conversavam sobre beleza em animado papo na calçada. Uma falava que ia mudar a cor dos cabelos, pintando-os com a cor de chocolate. E recomendava a mesma cor para a amiga, esta já meio corcunda ou cacunda, como dizia minha avó.
"Fia, ocê tem razão. Vou tingir de chocolate pra ficar mais bonita", disse, exultante, a cacunda. As duas são loiras de farmácia ou oxigenadas, com cabelos lisos tipo "o boi lambeu", coisa mais feia do que a taxa de desemprego superior a 12% no nosso amado Brasil.
E na rua uma amiga encontrou de novo o seu Caldeira, um português de 96 anos. Magro, parecendo o mapa do Chile de tão fino, ele ficou viúvo não faz muito tempo. Não para de andar. Vai pra cima e pra baixo, batendo perna e gastando sola de sapato.
"Fui militar em Portugal, servi ao Exército no tempo do Salazar e aqui está a prova". No caso, a prova é a carteira de militar que, orgulhosamente, ele já mostrou para a amiga umas quinze vezes. Até entendo o seu Caldeira.
Assim como certos personagens não "desencarnam" de muitos atores, como aconteceu com o Johnny Weissmuller, o melhor Tarzan do cinema, certas profissões, ao que parece, nos acompanham pelo resto da vida.
Eu, por exemplo, tento me livrar da síndrome de biscateiro e, por isso, acho normal o comportamento do seu Caldeira. Olha aqui, pessoal: o verbete biscateiro vai aqui no bom sentido, é o sujeito que faz "serviços de forma não fixa", como explica o Dicionário Informal. Desculpem o mau jeito e não me levem a bem, quer dizer, a mal.

DROPS

Amigo do peito é cardiologista, do seio é silicone.

Falta peneira no mercado. O governo comprou todo o estoque para tapar o sol.

Velha pelancuda em praia de nudismo é o tipo de nudez que merece ser castigada.

O Brasil não cresce porque sofre do Complexo de Peter Pan.

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